Papai e o futebol, por João Jorge
Sigo nas mídias a Zélia Duncan, de quem sou grande de fã, e com quem concordo quase sempre em opiniões sobre de um tudo. Pois ontem, um vídeo seu nos segredava: “Só penso em Futebol (ou seria Copa do Mundo?)!” Que nem eu, disse em voz alta para Xuxu que me olhava.
Ontem assisti todos os jogos, o que significa que fui dormir às 3 da manhã. São 6 horas agora, e estou morrendo de sono. Como escrever uma crônica nessas condições. Fui atrás de alguma coisa sobre futebol e me deparei com este texto de meu mano Juca sobre a relação de papai com o futebol. Ontem, num telefonema de mais de uma hora, desses para matar saudades, insisti que ele continuasse a escrever, mesmo que não fosse para publicar. Faz bem à saúde dos velhinhos. Peço licença, uso escrita sua para esse domingo de Copa do Mundo.
“Meu pai sempre gostou muito de futebol. Torcedor do Ypiranga da Bahia, desde menino, nunca se sentiu tentado a mudar de time. Mesmo quando seu time foi rebaixado para a segunda divisão, dizia que o Ypiranga já tinha dado tantas alegrias a seus torcedores que já era suficiente, não precisava vencer mais.No Rio papai afirmava torcer pelo Bangu. Dizia que se tornou torcedor por causa de Zizinho, um antigo jogador do Bangu. Apesar dessa afirmação, nunca o vi torcer realmente. Não ia ao Maracanã, não acompanhava os jogos do Bangu, não sabia a escalação do time, nada.
Em outros lugares, torcia sempre pelo time adversário do de quem estava com ele. Foi certa feita a um estádio em Moscou, com uns amigos torcedores do Partizan. Passou imediatamente a torcer pelo Dínamo.
Uma vez, em Recife, estava dando autógrafos quando dedicou um livro para um menino chamado Ricardo. Na dedicatória pôs: “Para Ricardo, coração de leão...”. O menino se ofendeu. Leão é o símbolo do Esporte Clube do Recife. Papai teve que acrescentar ao final da dedicatória um “Viva o Náutico!”.
Gostava de organizar bolões de futebol, contando pontos para a indicação do vencedor ou de empate, pontos para o escore total do jogo e para o número de gols para cada um dos times. O primeiro bolo desses, de que me lembro, foi feito na copa de 58. Muita gente participou e se chegou a uma quantia considerável. Não me lembro mais quem ganhou, mas sei que Paloma ficou em segundo lugar, com dois pontos a menos que o vencedor.
Quando falava sobre futebol, usava uma linguagem antiga, cheia de termos ingleses, que eram usados quando o futebol iniciou-se no Brasil. Goleiro para ele era goal keeper, escanteio era corner, e numa descrição de jogo dizia que o center half pegou a bola, e ia por aí. Quando resolveu escrever um livro infantil sobre futebol teve que fazer uma atualização em seu vocabulário futebolístico. Passou a ouvir com mais atenção os locutores que irradiavam os jogos e os comentaristas ao final de cada partida.
Quando terminou “A bola e o goleiro” já era um expert. Conhecia pelo menos seis sinônimos para cada termo de futebol. “
Acrescento que foi a única vez que ganhei um bolão. Se tivesse apostado em resultados nesses primeiro jogos, teria perdido todos. Aliás, jogar em resultado, só em bolão familiar, na de Bet pelamordeDeus! Dê block nas Bets! Abaixo o Tigrinho.
Bom domingo a todos, com licença que eu vou dormir que hoje tenho muito jogo a assistir. E um abraço especial para Zélia Duncan.
crônicas de domingo
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Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

