Cachaça — Memória Líquida do Brasil

Coluna de estreia · Raquel Lopes

Fonte: Acervo da autora / Créditos: Paulinho Muniz - Revista Rio Já

Meu nome é Raquel Lopes.

Sou carioca, nascida no Rio de Janeiro, com o coração profundamente brasileiro e uma vida que, há alguns anos, ganhou endereço em Lisboa.

Minha primeira formação foi nas artes dramáticas e na dança. Talvez por isso eu tenha aprendido muito cedo que toda história precisa de presença, de escuta e, sobretudo, de gente. Antes de trabalhar com bebidas, aprendi a observar pessoas, lugares, gestos e histórias.

A vida, porém, tratou de me ensinar também sobre recomeços.

Em 2015, depois de perder meu segundo marido, precisei reconstruir a minha vida. Voltei ao trabalho, mergulhei no universo dos vinhos, estudei, viajei por regiões vinícolas e passei a trabalhar com a importação e o posicionamento de marcas de vinho. Um ano depois, mudei-me para Lisboa com os meus filhos.

Foi aqui que aprendi outra coisa importante: quando a gente muda de país, não leva apenas uma mala. Leva uma identidade inteira.

E talvez seja justamente por isso que a cachaça tenha me encontrado.

A cachaça sempre me encantou, mas houve um dia em que ela deixou de ser apenas uma bebida para mim. Eu estava no Rio, em um bar, acompanhada de amigos estrangeiros. Todos pediram caipirinhas. Eu, a única brasileira da mesa, olhei para a cachaça que estava sendo servida e não gostei do que vi — nem do que imaginei que aqueles amigos levariam daquela experiência sobre a bebida brasileira.

Então fiz uma promessa: no dia seguinte, levaria todos a um alambique para conhecerem a verdadeira cachaça.

Fomos ao Maxcana, em Grumari, um lugar que eu já frequentava havia anos. E ali aconteceu alguma coisa.

Eles descobriram a cana, a fermentação, o cobre, as madeiras, os aromas, o tempo. Descobriram que por trás de uma garrafa de cachaça havia conhecimento, território, família, técnica e memória.

E eu descobri que havia uma história enorme sendo contada por muito pouca gente.

Foi naquele dia que pensei:

Quem está contando essa história?

Talvez eu pudesse ser essa ponte.

Foi assim que nasceu a Casa Cachaça — primeiro como um projeto, depois como trabalho, e finalmente como uma missão: mostrar que a cachaça não é apenas o ingrediente de uma caipirinha. É um destilado complexo, diverso, profundamente ligado à cultura brasileira e ao trabalho de centenas de famílias que preservam conhecimentos transmitidos entre gerações.

Desde então, minha vida passou a ser uma espécie de viagem pelos caminhos da cachaça.

Conheci produtores, alambiques, famílias, histórias e territórios. Aprendi sobre importação, legislação, rotulagem, logística e sobre todas as dificuldades que existem entre uma garrafa produzida no interior do Brasil e uma garrafa chegando a uma mesa em Lisboa.

Mas quanto mais eu conheço a cachaça, mais percebo que ela é muito maior do que a bebida que está dentro da garrafa.

Ela fala de terra.

Fala de trabalho.

Fala de migração.

Fala de Portugal e do Brasil.

Fala de engenhos, de cana, de açúcar, de madeira, de escravização, de comércio, de riqueza, de resistência e de transformação.

Porque a história da cachaça também é feita de momentos em que uma bebida deixou de ser apenas bebida e passou a representar identidade, resistência, pertencimento, moeda de troca e até revolução...

Mas essa é uma história para outra quarta-feira.

E é justamente por isso que aceitei o convite para estar aqui.

A partir de hoje, quero fazer com vocês uma viagem.

Uma viagem que começa muito antes da primeira garrafa de cachaça. Quero voltar às origens da cana-de-açúcar, atravessar o Atlântico, passar pela Madeira, chegar aos primeiros engenhos brasileiros e acompanhar a transformação de uma aguardente em um dos maiores símbolos da identidade brasileira.

Depois, quero sair dos livros e chegar às pessoas: aos homens e mulheres que ainda hoje fazem cachaça, aos pequenos alambiques, às famílias, aos territórios e às histórias que existem por trás de cada rótulo.

Porque, para mim, conhecer a cachaça é conhecer um pouco mais do Brasil.

E talvez seja também uma maneira bonita de olhar novamente para a história que une Portugal e Brasil — não apenas pelo que aconteceu há cinco séculos, mas pelo que ainda podemos construir juntos.

Esta coluna será, portanto, uma viagem.

Uma viagem de volta às origens.

E, para começar, na próxima quarta-feira, vamos voltar ao ponto de partida.

Lisboa.

Porque antes de a cachaça ser brasileira, houve uma longa história de cana, açúcar, engenhos e conhecimento que atravessou este mesmo Atlântico. E é aí que começa a nossa história.

Até quarta-feira.

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