Amor por Cabo Verde
Conheci Irineu no final dos anos 60, quando eu namorava com Raimundo Caniço, seu colega no sexto ano de medicina na UFBa. Um convênio entre o Brasil e Cabo Verde oferecia bolsas de estudo a alunos africanos.Fomos muito bons amigos, ele era alegre, brincalhão e sério, tudo ao mesmo tempo. Nós o chamávamos de Giringa. Ainda morou algum tempo na Bahia depois de formado, mas o perdi de vista quando casei e mudei para o Rio
Acervo da autora
Voltei a Salvador para um seminário de Psicologia e um dos palestrantes internacionais era Irineu, vinha da cidade de Praia contar seu lindo projeto de pesquisa relacionando a psiquiatria com o relevo das ilhas que formam seu país. Foi um abraço delicioso de matar saudades, perdi de ser sua aluna no curso de Psicologia na Bahia, as colegas com quem iniciei minha formação diziam maravilhas dele como professor.
Em 1986 acompanhei o Presidente Sarney, com quem trabalhava, a Cabo Verde. Atendia ao convite do Presidente Aristides Pereira e pela primeira vez desde que assumira a presidência saía das Américas e ía justamente para a África. Nesta comitiva estavam meus pais. Não consigo descrever a maravilha que foi esta abertura do Brasil para os países africanos, começando pelo Arquipélago sempre tão esquecido. Era povo na rua gritando vivas enquanto os dois líderes andavam de braços dados pelo meio das pessoas na cidade de Praia. Uma festa bonita e uma realidade difícil e terrível, um povo tão gentil vivendo anos sem água, mas não desesperando. Foi quando reencontrei Giringa! Era Ministro da Saúde há seis anos, lutando pelas melhores e mais difíceis causas. Conhecemos e convivemos com o escritor e jornalista Jorge Alfama e sua mulher Maria Antônia, pessoas formidáveis que passaram a fazer parte de nosso círculo de amigos. Foi nessa época também que Cesária Évora entrou em minha vida! Levei para casa um cd que escutava todos os dias. Sodade!
No final da visita presidencial, Sarney perguntou para Aristides Pereira o que o Brasil poderia fazer por Cabo Verde? A resposta surpreendeu a todos: Cabo Verde não tem uma Biblioteca Nacional, precisamos de uma, nosso povo precisa ler! Ficamos todos muito emocionados. Ainda no avião, voltando ao Brasil, o Embaixador Ricupero e eu recebemos as diretrizes para que conseguíssemos com a Volkswagen duas Kombis já transformadas em bibliotecas móveis, para as cidades de Praia e Mindelo. Um primeiro passo para remediar o problema. Quanto ao prédio da Biblioteca Nacional, Sarney pediu diretamente a Oscar Niemeyer, que fez o projeto sem cobrar, um presente seu ao pequeno e valoroso país. As kombis foram para Cabo Verde, recheadas de livros doados por editoras brasileiras. Já a construção da Biblioteca, essa foi barrada pelo novo presidente quando assumiu. Collor achou um desperdício de dinheiro. Não sei como a história acabou, tomei raiva dos que boicotaram.
(Por falar em Collor, ele me demitiu por ter ido para a UNESCO, mesmo com todos os papéis de cessão de funcionário absolutamente em ordem... Perdi quinze anos de serviço público concursado!!! O parêntese é só para falar de como se faz politicagem: se Sarney fez, eu desfaço; trabalhou com Sarney, eu demito... Saímos perdendo, Cabo Verde e eu.)
Não estive mais com Irineu, sei que foi Ministro até 1990 e depois, com a mudança de governo, se voltou para a pesquisa e seu consultório de psiquiatria. Infelizmente morreu cedo, há dez anos.
Voltei a Cabo Verde algumas vezes, uma à cidade de Praia com meus pais, a convite de Jorge Alfama. Depois, boa marinheira que sou, procurava sempre navios que parassem em Mindelo. Dessa forma estive por 3 vezes nesta cidade adorável. O roteiro iniciava sempre no restaurante de Dulce para vê-la e à Ângela, sua lugar-tenente, minha amiga de Facebook. Além de papear, comia o melhor buzio da ilha! Já comeu? É enorme e delicioso. E depois os passeios a pé conversando com as pessoas, pelas ruas, no mercado, nas praias lindas.
Ao ver pela primeira vez o filme Capitães da Areia, dirigido por Cecília Amado, minha filha, de quem tenho muito orgulho!, tive imensa emoção ao ouvir Cesária Évora cantando “Yamore”, de Salif Keita, sendo esta a voz da cena do resgate de Ogun, por Pedro Bala e seu grupo. É de uma beleza indescritível, e para o meu coração, sabe a uma amalgama de sentimentos entre nós, família Amado, e Cabo Verde.
Tudo isso dito, como expressar o que senti assistindo ao jogo Cabo Verde x Espanha? O melhor dos melhores! Todos apaixonados por Vozinha, e eu junto com o povo brasileiro. Sou uma entre os milhões de seguidores que imediatamente passaram a segui-lo. Até hoje estou vivendo a emoção desta hora e meia inesquecível. Aprendi desde sempre a força que tem esse povo que faz milagres pela sobrevivência. Meu pai escreveu uma vez: “não são onze ilhas como ensinam os compêndios, são províncias da lua ancoradas no mar Atlântico, paisagem de vulcão extinto, a terra é negra, não chove nunca, árvores raras. Quando os primeiros navegadores chegaram não existiam habitantes, apenas o oceano, os peixes e o sal, lua minguante, despovoada.”
Para uma coisa pelo menos essa Copa do Mundo de 2026 há de servir, para que o mundo inteiro fale e conheça Cabo Verde e seus habitantes, um herói da sobrevivência em cada um deles, queridos, simpáticos, inteligentes, bonitos e, sobretudo, trabalhadores incansáveis. Além de parecidíssimos com os baianos!
Despeço-me citando uma vez mais meu pai, em texto extraído de seu livro “Navegação de Cabotagem”:
“Encaminhamo-nos para a sala onde se dará o banquete oferecido pelo Presidente da República de Cabo Verde ao Presidente da República do Brasil: Sarney veio a Praia em visita oficial.
Zélia aperta-me o braço, faz-me parar, sorri. Em nossa frente, no corredor, a senhora Aristides Pereira, mulher do Presidente, primeira-dama do país, a simpatia em pessoa. Não se imaginando seguida, ouvindo a música que vem da sala, antes de nela penetrar, executa um passo de dança, parece um gingado de samba, é um requebro de morna, ritmo e baile de Cabo Verde, o mesmo dengue, idêntico meneio de ancas, a bunda em vai-e-vem.”
crônicas de domingo
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crônicas de domingo 〰️
Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

