Poços de Caldas e sua Festa do Livro

Eu devia ter uns 7 anos, quando vim a Poços de Caldas. Mamãe tinha uma artrite deformante nas mãos, e acreditava na cura pelas águas. Assim que algumas de nossas férias na infância foram em cidades com termas que salvam. O hotel aqui era imenso, cheio de atrações divertidas, mágicos, palhaços e muitas crianças para a gente enturmar, pintar e bordar. Os adultos tinham música antes do jantar, sentavam em mesinhas nas laterais de um imenso salão para ouvir um pianista tocando lindas canções, os hits da época.

Acervo da autora

Qual não foi minha surpresa ao chegar à bela cidade e ser levada ao mesmo Hotel Palace da minha infância, tantos anos depois, igualzinho ao que era. Foi Gisele Ferreira quem me proporcionou esta emoção de reviver a infância ao me convidar para a FliPoços, que organiza há anos com imenso sucesso.

Fiz um vôo de Salvador a Campinas e lá estava seu Fábio esperando por mim e Lilian Almeida, baiana, e Luiz Cassol, gaucho, para nos conduzir por quase 3 horas ao nosso destino literário. A viagem que deveria ser longa e demorada pelo feriado no dia seguinte, foi da gente nem ver o tempo passar, tão gostosa foi a conversa e a amizade recém-feita. Então cheguei ao hotel e... Bum! Aquele coração batendo rápido, vendo crianças correndo pelos salões, a música vindo do happy hour, igualzinho 60 anos atrás.

A festa do livro foi maravilhosa, tive a honra de ser a homenageada. E se não tinha entendido por que, me disseram palavras que me fizeram sentir o quanto tenho trabalhado pelas obras de meus pais e como isso repercute. Sou grata, muito grata mesmo, por me dizerem isso com todas as letras e eu finalmente enxergar a dimensão do que faço com amor diariamente. Acho que minha mesa, lindamente mediada por Samantha Buglione, foi das melhores que fiz até hoje. Vocês devem estar pensando, que mulher mais gabola é essa... Odylo, que foi meu sogro, diria: "Elogio em moto proprio é vitupério", mas como eu não sei o que é vitupério e nem gasto meu tempo procurando, fica por isso mesmo. Vão desculpano a falta de modéstia.

A Fli se extende por uma semana, e eu só participei do final, assim que não encontrei com Itamar nem com Carla Madeira, de quem sou fã número um (disputando o lugar com Letícia, colega de meu neto Lipe, para quem estou levando um livro autografado por nossa predileta). Mas tive a alegria e a honra de assistir Milton Hatoun em dose dupla, sendo que a segunda mesa, com Safa Jubran e Michael Sleiman, sobre a literatura árabe foi simplesmente o máximo.

O melhor foi poder conversar e contar casos para muitas pessoas que vieram até mim com alegria, conhecer Maciel, o livreiro, e a turma da organização, Gabi, as loiras Marcia e Marina, Jesuane, Igor e Mateus, a quem agradeço de coração.

Aconteceu uma coisa rara que foi ouvir de camarote minha querida Miriam Leitão. Vou explicar: meu quarto no Hotel Pálace tinha um balcão, dando exatamente sobre a Fli, em frente ao Coreto Cultural. Lá embaixo se ouvia bem, mas o som das pessoas no entorno podia interferir. Mas de cima, no meu quarto-camarote, ele chegava límpido! Enquanto arrumava a malinha, tentando dar um jeito para caber tantos livros e presentes recebidos, escutava sobre a incrível experiência de Miriam na Amazonia.

Foi bom demais. Agora me apresso, daqui a pouco vem seu Jackson me buscar. Estou curiosa para saber quem vai viajar comigo para Campinas. Enquanto ele não chega, ouço a bandinha tocando no coreto da praça!

Obrigada Gisele, de coração agradeço.

Bom domingo a todos.

crônicas de domingo

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crônicas de domingo 〰️

Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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