O livro que tirou Jânio do sério

Ainda hoje, permanecem desconhecidas as verdadeiras razões que levaram Jânio Quadros a renunciar à Presidência da República após apenas sete meses de governo. O episódio já foi objeto de análises de historiadores e jornalistas, mas nunca se chegou a um consenso sobre as reais motivações de sua surpreendente decisão de deixar o cargo para o qual havia sido eleito, apoiado por um movimento popular repleto de esperança. Jânio apresentava-se como alguém disposto a transformar a maneira de fazer política. Para muitos, porém, sua renúncia representou uma quebra da confiança depositada pelo povo.

Em 17 de julho de 1981, acompanhei meu pai a um evento cultural que marcou o lançamento, em João Pessoa, do mais novo livro do jornalista paraibano Marcone Formiga. Aos 26 anos de idade, nosso conterrâneo e, para orgulho de meu pai, seu sobrinho e afilhado, já despontava, na capital do país, como um dos nomes de referência do jornalismo político nacional. Revelava, desde cedo, vocação para o exercício da profissão, destacando-se também pelo perfil polêmico, em razão dos questionamentos que levantava sobre a vida política brasileira.

​A obra, lançada naquela tarde de sexta-feira, na pérgula do Hotel Tropicana, alcançou grande repercussão nacional. Recebeu elogios de destacados jornalistas e de importantes nomes da literatura brasileira, entre eles os acadêmicos Josué Montello e R. Magalhães Júnior, ambos membros da Academia Brasileira de Letras.

O próprio título do livro despertava curiosidade: Jânio, Herói ou Bandido? Bastava lê-lo para imaginar a discussão que provocaria ao abordar um tema cercado de controvérsias e especulações. Marcone dedicou-se a um intenso trabalho de jornalismo investigativo, entrevistando pessoas que conviveram com o presidente durante seu breve mandato. Além de políticos e integrantes do governo, conversou também com motoristas, copeiros e mordomos do Palácio, buscando compreender, na intimidade, como se comportava o homem que, por alguns meses, comandou os destinos da nação.

O objetivo era entender a inesperada decisão que surpreendeu todo o país. Daí a pergunta que dá título à obra: Jânio agiu como herói ou como bandido? Teria sido realmente pressionado pelas "forças terríveis", como afirmou na carta de renúncia, ou apostou em uma estratégia arriscada, imaginando que a comoção popular exigiria seu retorno ao poder com autoridade ainda maior?

​Segundo relatos da época, ao tomar conhecimento do conteúdo do livro, Jânio Quadros reagiu com irritação e chegou a pisotear um exemplar que tinha em mãos. Seu temperamento, frequentemente descrito como impulsivo, teria contribuído para essa reação diante de uma obra que colocava em dúvida a sinceridade das justificativas apresentadas em sua carta de renúncia. Marcone questionava a versão que o ex-presidente insistia em sustentar para explicar seu gesto.

​O livro de meu primo constitui um importante documento para quem deseja estudar um dos episódios mais intrigantes da história política brasileira. Independentemente das conclusões a que cada leitor possa chegar, a obra oferece uma contribuição relevante ao reunir depoimentos, levantar questionamentos e estimular a reflexão sobre um acontecimento que, mais de seis décadas depois, continua cercado de mistérios.

Rui Leitão

Na Linha do Tempo

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Sobre O autor

Jornalista, escritor e historiador.

Integrante da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba

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