O feminismo e suas ondas - parte 2

Te convido a segunda coluna falando de feminismo... Dessa vez para que entendamos esse movimento no Brasil. O primeiro movimento feminista brasileiro é o movimento do sufrágio, o movimento sufragista.

O voto para as mulheres no Brasil passa a ser uma realidade em 1932, mas um século antes, uma mulher chamada Nisia Floresta lançou um livro intitulado Direito das Mulheres Injustiça dos Homens.

Esse é o primeiro texto a tratar do direito das mulheres, à instrução e ao trabalho e a exigir que nós, mulheres, fôssemos consideradas inteligentes e merecedoras de respeito. Portanto, esse livro de Nisia Floresta é considerado o texto fundante. do feminismo brasileiro.

Lendo apenas um trecho do texto já podemos entender como a desigualdade era profunda. Diz assim : Se cada homem em particular fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, estaríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso. Que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e dar prazer a nossos amos, isto é, a eles, os homens. E esse era o mundo em 1832.

Essa realidade começa a mudar bem aos pouquinhos, por meio das escolas que ensinavam disciplinas para além de prendas domésticas. Escolas essas fundadas inclusive por Nízia Floresta.

Até que a primeira onda do feminismo brasileiro, assim como o feminismo internacional, se estabelece no país, com o tema sufragista que tem no Brasil, como grande nome, Berta Lutz. Ela era bióloga, filha de Adolfo Lutz, uma mulher que tinha morado no exterior e traz de lá a questão do voto feminino. Faz muitos movimentos e então, Getúlio Vargas, em 1932, institui o voto das mulheres. Ocorre que não houve eleição nesse período, então as mulheres passam a votar legalmente no Brasil, se alistar para as eleições e serem votadas efetivamente, em 1945.

Depois, entre os anos 70 e 90, assim como no cenário internacional acontece a segunda onda do feminismo no Brasil.

Diferente do cenário internacional, nós vivíamos um momento ainda da ditadura militar. Muitos movimentos de mulheres foram determinantes para a queda da ditadura. Um deles, o movimento da anistia, que é liderado, é criado por mulher. Outro, o movimento do custo de vida, também liderado por mulheres, mostra para a sociedade , que o chamado “milagre brasileiro” , na verdade, era muito mais uma retórica que uma realidade. Portanto nãohaviaa nenhum sentido o discurso que dizia que era possível trocar a liberdade por uma situação econômica melhor.

Dois movimentos muito importantes.

Depois, em 1985, é criado o Conselho Nacional da Mulher. O conselho vai ser fundamental para os trabalhos que trazem as demandas das mulheres na Constituinte.

Na constituinte havia uma bancada de pouco mais de 20 deputadas, chamada de bancada do Batom, que vai lutar pelos direitos das mulheres e conseguir muitos avanços. Então, esse período de 70-90, é de muita efervescência dos movimentos feministas, primeiro em busca da queda da ditadura, depois na busca dos direitos.

A terceira onda no Brasil se estabelece mais ou menos entre 1990 e 2010. Por um lado, é a onda que entende os feminismos, que fala da diversidade, a interseccionalidade da mulher. aparecendo as questões dos feminismos negros e LGBT. Mas também quando o tema do feminismo é alavancado a um tema no campo da ciência. São as primeiras linhas de pesquisa, os primeiros departamentos nas universidades que tratam especificamente do feminismo e dos estudos das mulheres a partir de uma visão muito própria.

A quarta onda do feminismo, assim, como ocorre no cenário internacional, ocorre a partir de 2010 e é caracterizado pelas questões vinculadas às redes sociais, a possibilidade de organizar mulheres de vários lugares por meio de movimentos que tratam de reivindicações que atingem a todas nós, por exemplo. o movimento Chega de Fiu Fiu, Me Too Brasil, Ninguém solta a mão de ninguém.

Mobilizações que trazem legislações muito necessárias contra o assédio, contra a violência, contra o feminicídio e contra novas formas de violência nas próprias das redes, como o stalking.

É verdade que no Brasil nós tivemos quatro ondas de feminismo, assim como tivemos internacionalmente. Mas aqui há características muito próprias, especialmente a participação das mulheres nos movimentos contra a ditadura e nos movimentos de redemocratização, especialmente por meio do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, instituído pelo presidente José Sarney em 1985.

As mulheres não tiveram nenhum direito dado, todos eles foram conquistados, com muitas lutas e há muito ainda a se conquistar. por exemplo, uma maior participação política no legislativo e em cargos de alta gestão, tanto na esfera pública como na área privada.

Portanto, a luta não acabou. Nós já conseguimos muito, mas não conseguimos tudo.

Chá de Ideias

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Chá de Ideias 〰️

Sobre a autora

Doutora em Administração de Empresas pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV), mestre em Comunicação Social e graduação em Relações Públicas (PUCRS); Servidora Pública há 27 anos, Diretora-geral do Senado Federal, desde 2015; professora do Mestrado e Doutorado em Administração Pública no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP); colunista do Portal R7, com o vídeoblog “Chá de Ideias”, desde fevereiro de 2025; membro do Conselho de Administração da Caixa Seguridade e autora de livros, entre eles “Intraempreendedorismo no âmbito público federal com foco na inclusão social”.

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