Alienação parental

Neste Dia das Mães, quero homenagear a minha, que foi a mais querida, doce e maravilhosa mãe que se pode ter, contando mais uma vez uma parte tristíssima de sua — nossa — vida. Mamãe se casou muito cedo, o pai estava preso pela Ditadura do Estado Novo (solto para morrer em casa), a vida estava muito difícil. Quando engravidou, o marido não quis o filho, a obrigou a abortar.

Acervo da autora

Foi daqueles abortos clandestinos, que a levou para o hospital em emergência, para que não morresse. Ela me contava:

— Estava com muita febre, acho que delirava, mas a sirene da ambulância era real e eu sentia que estava indo embora junto com meu filhinho. Talvez fosse o melhor, pois me disseram que não poderia mais ter filhos...

O marido junto a ela no hospital chorava e pedia perdão.

Quando engravidou pela segunda vez, novamente veio a decisão de que deveria tirar a criança. Dessa vez ela não aceitou. Muitas brigas depois, ele a pôs para fora do quarto.

— Vá dormir na sala, não divido cama com mulher grávida.

Falava com ela apenas o indispensável para a vida continuar. Seria impossível se separar naquele momento, ela não tinha para onde ir, minha avó vivia com a filha mais velha, o cunhado dizia não ter espaço para mais ninguém, que dirá uma mulher grávida.

Perto de dar à luz, mamãe puxou conversa do nome que dariam à criança. Dessa vez ele respondeu:

— Põe Merda. Serve para menino e para menina.

Meu irmão ganhou o nome de Luiz Carlos, homenagem ao Cavaleiro da Esperança. Mamãe o criou dormindo na sala. Muito carinho, muita alegria com seu menino. Muita tristeza numa vida de casal que nem mais existia. Decidiram pela separação, mamãe procurava um trabalho e um lugar para viver com o filho.

Foi num trabalho político no fim da ditadura, na preparação do Comício do Pacaembu, para receber Prestes, que mamãe conheceu meu pai. Foi uma paixão fulminante e eles foram morar juntos. Enquanto corriam os papéis do desquite, acordado pelos dois, Luiz Carlos foi viver com tia Vera. Papai foi eleito deputado federal e eles mudariam para o Rio de Janeiro, levando Luiz com eles. As coisas pareciam caminhar bem, até o ex-marido saber que era papai o amor de mamãe. A partir daí, além de chamar para a briga física (espancou e quebrou o braço de papai), foi para a justiça requerer a guarda do filho. Ganhou facilmente, pois uma mulher desquitada em 1945 era tida como puta, e no caso de mamãe ainda por cima estava "amigada com perigoso comunista". O juiz deu ganho a ele. Mamãe vinha a São Paulo ver Luiz, que a esperava em casa de tia Vera.

Acontece que veio nova ditadura, papai teve o mandato de deputado cassado, seu nome encabeçava lista dos que deveriam ser eliminados. Mamãe vinha de dar à luz meu irmão João Jorge. Papai teve que sair correndo para o exílio, mamãe ficou mais alguns meses no Brasil para vender tudo o que tinha e, sobretudo, ir à Justiça mais uma vez pela guarda de meu irmão, agora com um pedido para levá-lo com ela para a Europa. Perdeu. Continuou tentando desde Paris, mas sem nenhuma chance. Tia Vera e vovó Angelina o viam de vez em quando e mandavam notícias em cartas lindas.

Cinco anos de exílio, cinco anos do pai fazendo o filho odiar a mãe. Ao voltar para o Brasil, ela teve que encontrá-lo em ambiente da Justiça, com alguém vigiando, o menino a rejeitava. Depois, já adolescente, ele se negava a vê-la. Mamãe ia para São Paulo, voltava chorando de dar dó. Eu sabia que ela se escondia perto de sua escola para vê-lo entrar e sair, mas quando o abordava, ele a mandava embora e muito agressivo.

Já adulto, foi sua noiva que o convenceu a procurar mamãe. Ele estabeleceu as condições: não queria saber a versão dela da história e não era permitido tocar no nome de papai em nenhuma hipótese. Ela, em princípio, achou que era injusto, mas papai a convenceu de que valia a pena, resgatava o filho e depois, com paciência, as coisas entrariam nos eixos. Assim foi, mamãe feliz em abraçar seu primogênito. Nasceu a primeira filha, fomos visitar em São Paulo. Quando o pai dele morreu, os nós começaram a se afrouxar. Passaram-se anos até que ele aceitou vir à Bahia com a filhas. Ia estar com papai pela primeira vez e o nervoso era enorme. Eu, que morava no Maranhão, vim com minhas filhas, João estava ali mesmo e a família reunida os receberam de braços abertos. Foi tudo muito cordial, mas havia um silêncio pesado, o silêncio do que não podia ser dito para não partir aquela relação ainda tão frágil.

Luiz e família voltaram mais uma vez a Bahia. Com as meninas na adolescência, mamãe as convidou, uma de cada vez, para um mês em Paris. Luiz deixou, com a primeira das condições em vigor, nada de se falar do que mamãe passou.

Foi assim que aconteceu, mamãe ganhou seu filho de volta, nós um irmão, uma cunhada e sobrinhas. A última vez que ela o viu foi na festa dos seus 90 anos, dançaram uma valsa juntos.

Papai morreu em 2001, ficamos preocupados com mamãe, mas ela mesma nos tranquilizou:

— Estou muito triste, mas não vou me deixar levar. Quero viver!

E viveu até 2008. Foi quando Luiz foi embora, levado por um cancer muito cruel. Fui vê-lo na Santa Casa poucos dias antes de sua morte. Foi querido e carinhoso, mas mostrou como uma alienação parental pode ser efetiva, me reafirmou que não queria nada que o vinculasse e à sua família a papai.

Três meses depois mamãe partiu. Na sua longa internação, ela repetia:

— Não é justo filho morrer antes da mãe.

A minha mãe foi formidável. Ela dizia que a vida dela era papai, não importava o preço que tinha pagado. E o preço foi alto. Mas poderia não ter sido, e a história seria outra, com muito mais felicidade.

Viva dona Zélia!!! Um viva para as mães e os pais!!! Abaixo a alienação parental.

Bom domingo a todos!

crônicas de domingo

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Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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