O feito histórico de Kay France

A data de 19 de agosto de 1979 coloca a Paraíba no rol dos grandes feitos históricos de repercussão internacional. Kay France, na época com apenas 17 anos de idade, alcançava a proeza de ser a primeira mulher latino-americana a atravessar a nado o Canal da Mancha.

​Após uma tentativa sem sucesso no ano anterior, a jovem paraibana enfim realizou o desafio que havia determinado para si: cruzar, nadando, os 36 quilômetros que separam a praia de Shakespeare, na Inglaterra, de Wissant, na França. A travessia foi cumprida após 11 horas e 36 minutos de natação ininterrupta, documentada pela TV Globo. Apesar do frio intenso na região, ela foi recebida com uma comemoração calorosa por todos que a esperavam.

​Kay France, hoje médica, aprendeu a nadar aos dez anos e, a partir dali, não desistiu de concretizar esse sonho. Contou sempre com o apoio e o estímulo de seu pai, o professor Sales Pontes, que a acompanhava nos treinos diários efetuados na orla marítima de João Pessoa.

Em 1976, ela chegou a ficar quatro horas perdida no mar em pleno Carnaval. Quando finalmente pisou em terra firme, estava na Praia do Poço, em Cabedelo. Cansada, entrou em uma casa e foi recebida por um senhor que afirmou: “Você deve ser a menina de quem estão falando em todas as rádios”.

​A façanha só havia sido executada por um brasileiro até então: o desportista Abílio Couto, que viria a ser seu treinador por dois anos, até 1976. Após se desentenderem, a nadadora paraibana decidiu continuar seus treinos orientada exclusivamente por seu pai. Os dois corriam oito quilômetros de casa até o ponto de início da natação em mar aberto, sendo ela acompanhada pelo pai, que caminhava pela praia à medida que a filha avançava pelo mar.

​Até chegar a esse momento de glória, Kay France teve que superar muitas dificuldades, principalmente pela falta de patrocínio. Conseguiu, a muito custo, que o Governo do Estado lhe concedesse as passagens para a Europa, enquanto as demais despesas de estadia foram bancadas por empresas de Pernambuco, graças à intermediação da TV Globo. Conquistado o êxito em sua empreitada, ela declarou: “Foi mais difícil chegar à Inglaterra do que atravessar o Canal da Mancha”, numa forte crítica à falta de apoio ao esporte.

​Seu retorno à capital paraibana, depois de receber homenagens no Rio de Janeiro e em São Paulo, deu-se em um ambiente de muita festa. Foi recepcionada no Aeroporto Castro Pinto por mais de três mil pessoas, que a acompanharam pelas ruas da cidade em um desfile em carro aberto do Corpo de Bombeiros. Nas ruas, a população aplaudia a conterrânea, que se dirigia para receber as honras do governador Tarcísio Burity no Palácio dos Despachos, no Centro Administrativo do Estado, em Jaguaribe.

​Ela é, sem dúvida, nossa pioneira, nossa guerreira e o grande orgulho da Paraíba, um marco histórico inesquecível. O fato ainda mais impressionante é que Kay France, até os dez anos de idade, nunca havia entrado em uma piscina, o que significa que, poucos anos antes do feito, sequer sabia nadar. Após a travessia, recusou o convite para integrar a Seleção Brasileira Feminina de Natação nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980.

​Tive a satisfação, muitos anos depois, de desfrutar da amizade pessoal dessa paraibana que é motivo de orgulho para todos nós. Seu avô, o jornalista Barroso Pontes, era amigo de meu pai e, por várias vezes, estive com ele na residência em que morava, no bairro de Manaíra. Nossas famílias, portanto, sempre nutriram uma grande amizade.

Próximo
Próximo

A linguagem dos retalhos