A linguagem dos retalhos

Há coisas que guardamos sem saber por quê...

Dona Lúcia guardava pano.

Guardava sem saber direito para quê.

Tinha pano dentro da gaveta, pano em caixa de sapato, pano dobrado atrás das toalhas e uma sacola grande embaixo da cama que ninguém podia mexer.

— Isso ainda vai servir.

Era o que dizia.

A filha achava graça.

— Servir pra quê, mãe?

— Quando chegar a hora, eu descubro.

Naquela casa, quase tudo tinha uma segunda vida. Botão mudava de camisa. Vestido virava saia. Saia virava almofada. Lençol rasgado virava pano de prato. Só os retalhos menores escapavam da obrigação de serem alguma coisa.

Dona Lúcia simplesmente guardava.

Havia um pedaço de chita vermelha que tinha sido de um vestido de São João. Um algodão azul já quase sem cor. Uma renda amarelada que ninguém lembrava de onde tinha vindo. Um tecido verde com uma mancha escura bem no meio.

Esse, a filha queria jogar fora.

— Está manchado.

Dona Lúcia tomou o pano da mão dela.

— E desde quando mancha é motivo para jogar uma coisa fora?

Dobrou o tecido e guardou novamente.

Muitos anos depois, quando Dona Lúcia já não estava mais ali para vigiar suas gavetas, a filha abriu a sacola debaixo da cama.

Sentou no chão.

Foi tirando os pedaços um por um.

Alguns reconheceu imediatamente. Outros pareciam pertencer a uma história que tinha acontecido antes dela.

Passou a mão pela chita e lembrou da mãe dançando.

Cheirou a renda, mesmo sabendo que cheiro nenhum poderia ter sobrevivido tantos anos.

Quando encontrou o pano verde, viu a mancha.

Ainda estava lá.

Pensou em jogar fora.

Não jogou.

Levou tudo para casa.

Durante muito tempo, a sacola ficou encostada num canto do ateliê. Até que um dia ela espalhou os tecidos sobre a mesa.

Não tinha projeto.

Não tinha desenho.

Começou pela chita.

Depois aproximou o azul.

O azul brigou com o vermelho.

Colocou a renda no meio.

Piorou.

Tirou.

Tentou outra vez.

Foi cortando, juntando, afastando. Alguns pedaços pareciam querer ficar sozinhos. Outros se agarravam imediatamente.

Então começou a costurar.

Um ponto.

Outro.

Mais outro.

A linha atravessava tecidos que nunca tinham se encontrado antes.

O pano da festa encontrou a renda antiga.

O algodão gasto encostou na chita.

E bem no centro ela colocou o tecido verde.

Com a mancha.

Principalmente por causa da mancha.

Quando terminou, percebeu que nenhuma das partes tinha desaparecido dentro da outra. Continuavam diferentes. Era possível ver as emendas, os fios soltos, as mudanças de cor, os remendos.

Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.

Então se lembrou de uma coisa que Dona Lúcia dizia enquanto costurava:

— Não puxe demais a linha.

Ela nunca tinha entendido por quê.

Agora entendia.

Quando a linha aperta demais, o tecido enruga.

Talvez com as pessoas acontecesse a mesma coisa.

Naquela tarde, deixou a costura sobre a mesa e abriu a janela.

O vento entrou no ateliê e levantou uma das pontas da chita.

Por um instante, todos aqueles pedaços se moveram juntos.

Nenhum deixou de ser o que era.

Mas já não estavam sozinhos.

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