Na Bienal do Livro da Bahia
Conheço Pilar del Rio há muitíssimos anos, quando meus pais e Saramago estavam vivos e ativos. Desde o início dos anos 90 que nossas vidas se uniram em bemquerença e para sempre.
Acervo da autora
Um dia, já sem os nossos nessa vida, em Paraty, nos pedimos em casamento. Citando o grande Moreira da Silva: 🎶 Eu garanto que foi ela, ela garante que fui eu 🎶, quem fez o pedido. Na verdade, quem foi não tem a menor importância, casamento é carta fora do baralho para ambas e por isso recusamos. Além de uma amizade e um amor incomensuráveis, temos a nos unir os legados literários mais importantes da lingua portuguesa, a cuja preservação nos dedicamos integralmente. Ao mesmo tempo doce e árdua tarefa.
Josélia Aguiar, curadora este ano da Bienal do Livro da Bahia nos convidou para falarmos juntas em mesa sobre a amizade, o sal da vida. Vieram com ela a escritora portuguesa Anabela da Mota Ribeiro, às vésperas de lançar seu segundo romance, e sua irmã Maria del Rio.
A Bienal foi incrível e só não assisti mais painéis, lançamentos e debates pela coincidência de horários desta programação tão rica de eventos. Preciso citar o privilégio de ouvir mais uma vez Ana Maria Machado falando do fundamental da literatura nos nossos tempos atuais, onde uma censura não oficial impera proibindo o uso de palavras tão comuns, tolhendo os escritores de forma diferente, mas igualmente abusiva, à dos tempos da ditadura. Saí de seu painel me sentindo compreendida e bem acompanhada. A mesa de Pilar com Anabela foi linda, o Café Literário cheio de gente curiosa por conhecer mais do trabalho que Pillar e sua irmã Maria fazem em Lisboa e Lanzarote, nas casas dedicadas a José Saramago.
Levei o trio para visitar a Casa do Rio Vermelho e de lá fomos comer no Dona Mariquita da rua do Meio. Entrei e vi imediatamente Manuela Ramos, filha de Mariana e Daniel e bisneta de Graciliano. Que alegria abraçar esta prima que não via há anos. Nos sentamos e escutei chamar meu nome da mesa ao lado, era Emília Ribeiro, primogênita de João Ubaldo. Nos demos conta de repente, Pilar e eu, que estávamos reunidas no mesmo lugar, comendo a melhor comida baiana, quatro das responsáveis por manter viva o melhor da literatura de língua portuguesa: a mulher de José Saramago, a filha de João Ubaldo Ribeiro, a bisneta de Graciliano Ramos e eu, filha de Zélia Gattai e Jorge Amado. Quando nos juntamos para a foto, Manu já tinha ido embora.
Pillar foi para São Paulo com Anabela, mas Maria ficou comigo, partia daqui para Lanzarote e eu tive o privilégio de ciceroneá-la pela cidade do Salvador, que era seu sonho conhecer. Há muito não turistava por minha cidade e foi uma alegria imensa poder mostrar tudo, da Casa di Vina (ela e eu fãs de Vinicius de Moraes) em Itapuã à ponta do Humaitá, onde está a Igrejinha de Monte Serrat, no outro extremo, passando pelo Bonfim e a Ribeira, com direito a sorvete de pitanga. Na cidade alta, vimos, na Caixa Cultural, a exposição “Toda árvore tem raiz”, da pintora indígena Yacunã Tuxá. Maravilhosa, de encher as medidas. Recomendamos muito, Maria e eu, uma visita a ela. Terminamos o último dia com almoço delicioso no restaurante Cuco, no Terreiro de Jesus, de onde fomos pedir a benção à Clarindo Silva, o grande defensor do Pelourinho, na Cantina da lua. Foi muito bom caminhar com Maria por Salvador e ver seu sorriso de encantamento.
Ela se foi para Lanzarote, a Bienal acabou e eu me preparo para a Fli Poços de Caldas, no final do mês. Darei notícias de lá.
Bom domingo a todos.
crônicas de domingo
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crônicas de domingo 〰️
Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

