Milagres que vivi 3 — O Bruxo


foto fornecida pela autora

Uma equipe da televisão alemã chegou à Bahia para fazer um documentário. Um dos pontos altos seria a entrevista com Pierre Verger e Mãe Menininha no Gantois. É claro que fomos todos em comitiva, meus pais, Carybé e também Thomaz Farkas, nosso amigo e meio parente, grande fotógrafo, que estava na cidade. Mamãe levou a Nikon e seu gravadorzinho portátil, anterior à fita cassete, daqueles de rolo de fita. Farkas levou equipamento muito mais sofisticado, grande gravador, máquinas e várias lentes. No quarto de Mãe Menininha, os alemães montaram toda uma parafernália operada por equipe bem preparada.

Começou o diálogo entre Fatumbi e a Oxum mais bonita. O Babalaô e a Mãe de Santo revelavam, além de extraordinários saberes, a cordialidade e a gentileza próprias do culto afro-baiano. Tudo isso, gravado por mamãe e por Farkas.

Em determinado momento, Verger parou de falar, olhou para os dois caronas da entrevista e disse que a partir dali ele continuaria a falar, mas não queria que fosse gravado, que todos desligassem seus gravadores. Mamãe, dona da esperteza, fingiu que desligou e deixou gravando. Viu quando Thomaz mexeu no seu.

Chegando em casa, dona Zélia foi correndo ouvir se tudo saíra como o desejado. Qual não foi sua surpresa quando, em seguida a Verger pedir que desligassem tudo, o gravador começou a emitir um som estranho, como uma língua embolada e desconhecida. Papai e eu fomos chamados como testemunhas e ela confessou a desobediência. Papai sugeriu que ela ligasse para Farkas, vai que ele também não desligou o gravador. Assim foi feito. Thomaz atendeu, estava sem fôlego. Zélia, eu ia mesmo ligar para você. Imagina que eu não desliguei meu equipamento, mas só registrou até a voz de Verger dando a ordem para desligar, depois vem uma fala embolada, não sei de que idioma é. Pensei que você poderia também não ter desligado... Ficou urgente o encontro dos dois gravadores. Em meia hora Farkas entrava pela porta da Rua Alagoinhas. Puseram para tocar ao mesmo tempo, grande espanto, o falar embolado das duas gravações era absolutamente igual!

Bem que Mãe Senhora avisou você, Zezinho. Foi quando, numa ida de todos (baiano gosta de andar em grupo, e se um é francês e outro argentino, mais ainda!) para visitar Mãe Senhora, mamãe tentou fotografar Fatumbi à revelia. Ele logo mandou que parasse. Quer me fotografar, minha senhora? Eu poso para você e escolho os ângulos. Posou, virou para a esquerda, esse é meu melhor perfil, foram poucas fotos e ele disse: agora chega!

Mamãe era menina atrevida, no falar de vovó Angelina, e quando ele não estava olhando, clic!, mais uma foto. Se ele olhava, ela mudava o ângulo, disfarçava fotografando outra pessoa. Chegou em casa direta para o laboratório, tinha urgência em revelar o filme. Grande surpresa! De Pierre Fatumbi Verger saíram apenas as fotos que ele consentiu, as demais ficaram veladas, eram manchas esbranquiçadas. E apareciam intercaladas com as que ela tirava de outras pessoas para disfarçar, e que ficaram ótimas. Correu para ligar e contar o sucedido a Mãe Senhora. Ora, minha filha, eu já disse a você, não se meta com Verger que ele é Bruxo. Mesmo ele gostando muito de você, não provoque mais ele não.

E aí, pai, como você me explica? Eu, heim, explicar? Sou maluco de me meter com Verger?


Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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