Loja Maçônica Branca Dias e outras histórias


Loja Maçônica Branca Dias

10 jan. 2026

Quando do seu tombamento estadual, em 1980, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estada Parahyba (Iphaep) reconheceu o prédio da foto como parte do patrimônio cultural e histórico paraibano.

A partir de então, o edifício (obra do arquiteto Hermenegildo di Lascio), na atual Avenida General Osório, passou a ser oficialmente considerado como parte do conjunto urbano histórico da capital paraibana.


Loja Maçônica | foto disponibilizada pelo autor


Ao mesmo tempo, a própria Grande Loja Maçônica Branca Dias, sediada no edifício, ficou reconhecida como uma das instituições que ajudaram a formar a vida pública pessoense ao longo do século XX.

Segundo a história oficial da Maçonaria da Paraíba, a Branca dias foi criada em 10 de janeiro de 1918, tendo à frente o maçom Augusto Simões, sob os auspícios do Grande Oriente do Brasil. Contudo, o atual prédio, projeto do arquiteto Hermenegildo Di Lascio, somente ficou pronto em 1927.

Esses marcos situam a Branca Dias como uma das lojas mais antigas e influentes do cenário maçônico paraibano do século XX. Ela está relacionada entre as quatro primeiras fundadas no estado.

A escolha do nome é o traço mais singular da loja e, ao mesmo tempo, o mais delicado do ponto de vista histórico, porque Branca Dias vive numa zona em que documento, tradição e lenda frequentemente se misturam.

O que os textos comemorativos mais repetem é que o nome homenageia uma jovem cristã-nova, ligada à região de Gramame, que teria morrido em auto de fé em Lisboa, no ano de 1761.

Porém, há uma Branca Dias bem documentada na história colonial de Pernambuco, associada a processos inquisitoriais do século XVI, também vinculada à memória dos cristãos-novos.

Na verdade, os fundadores da loja escolheram inscrever a Branca Dias paraibana numa narrativa de intolerância religiosa, expressando situação vivida pelos próprios maçons ao longo da história. O que já inspirou notável peça teatral, assinada pelo dramaturgo e romancista Dias Gomes, intitulada O Santo Inquérito, com adaptação para a TV.


Irineu Pinto

11 jan. 2026

Oficialmente, a Rua Irineu Pinto começa na Avenida General Osório e termina na Rua Maciel Pinheiro. Mas na verdade faz parte de uma via urbana maior, que tem início na Praça João Pessoa, na parte alta da cidade, o que inclui um trecho inicial que homenageia o padre jesuíta Gabriel Malagrida. Finaliza seu trajeto na Rua Francisco Londres, através da rua Cruz Cordeiro, já no Varadouro. Tudo isso no Centro Histórico da cidade.


Capa do livro Datas e Notas para a História da Paraíba, de Irineu Pinto, pela Editora Universitária | foto disponibilizada pelo autor


Mas não fica só nisso as homenagens a Irineu Ferreira Pinto, na Paraíba. Seu nome é celebrado em duas bibliotecas no estado, sendo uma em Santa Rita e outra no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP), instituição que também lhe preserva a memória a cada concessão da Medalha Irineu Pinto a pessoas de relevo no mundo cultural do estado. Irineu Pinto foi um dos fundadores do IHGP, em 1905, tendo ocupado, no órgão, as funções de secretário e de bibliotecário. Enfim, nomeia uma escola pública municipal em Bayeux, onde viveu a infância.

Tido como uma das obras seminais da historiografia paraibana, o livro Datas e Notas para a História da Paraíba, de sua autoria, é considerado como de “consulta obrigatória”, quando se trata de compreender a história do nosso estado. Ele também integra o rol dos patronos da Academia Paraibana de Letras, criada em 1941, décadas após sua morte.

Para quem não pôde concluir o curso superior, que até chegou a cursar, na Faculdade de Direito do Recife, e ter vivido pouco (1881-1918), Irineu Pinto alcançou uma notoriedade apenas possível em virtude da paixão e da capacidade com que se dedicou à pesquisa histórica e à Paraíba.

Para não falar apenas de flores, a edição de 28 de março de 1920, do jornal A União, ao transcrever a Ordem do Dia da Assembleia Legislativa da Paraíba, listou, entre os itens em pauta, o projeto nº 10, ainda de 1918, que concedia pensão aos filhos de Irineu. A burocracia de sempre.


Avenida Miguel Couto

12 jan. 2026

A Avenida Miguel Couto, na parte alta do Centro Histórico de João Pessoa, é a única denominação urbana que liga diretamente a atual Rua Duque de Caxias e o Parque Solon de Lucena.


Avenida Miguel Couto, tendo ao fundo o Parque Sólon de Lucena | foto disponibilizada pelo autor


O principal prédio da Miguel Couto é a vetusta Igreja da Misericórdia, um dos marcos físicos que deram origem à cidade, da qual já falamos tanto, na esquina com a Duque de Caxias.

Ao longo do tempo, a Miguel Couto abrigou endereços muito festejados pela população pessoense. É possível citar o Restaurante Lido, que tinha endereço no mesmo local onde hoje se encontra o Shopping Terceirão.

Também abrigou a Sorvelanches 36 e Stop, a Parada do Sucesso, o moinho e comércio do Café Alvear, o Foto Condor, o velho Hospital de Ponto Socorro, além de icônicas barbearias que faziam a cabeça masculina na capital.

O cidadão reverenciado com o nome da via foi renomado médico, professor universitário e político no Rio de Janeiro, batizado Miguel de Oliveira Couto, que viveu entre maio de 1865 e junho de 1934.

A homenagem foi dada ao tempo do também médico Walfredo Guedes Pereira, então prefeito de João Pessoa, em 19 de agosto de 1935, por meio do decreto 338, publicado na edição de A União do dia seguinte.

Convém lembrar que Walfredo Guedes Pereira concluiu o curso médico na Faculdade Nacional de Medicina, em 1908, justamente onde Miguel Couto exercia a cátedra.

Couto, além de sua atuação na Saúde Pública, defendeu ardorosamente a criação do Ministério da Educação, concretizada no Estado Novo, e acabou eleito deputado na Assembleia Nacional Constituinte de 1934, instalada em novembro de 1933, tendo falecido antes do final dos trabalhos.

Atualmente, a Miguel Couto inclui um viaduto, o Terceirão, construído pelo prefeito Dorgival Terceiro Neto, na década de 1970, que a liga diretamente à Rua Cardoso Vieira, na parte baixa da cidade.


A praça e o pavilhão

13 jan. 2026

Semana passada registrei em foto a execução de trabalhos no belo coreto da Praça Venâncio Neiva, no Centro Histórico de João Pessoa. Não canso de admirar o local que considero um dos mais singulares da cidade.


Praça Venâncio Neiva | foto disponibilizada pelo autor

Minha admiração não se limita ao coreto, uma obra admirável do arquiteto italiano Pascoal Fiorillo, mas ao conjunto da obra, que inclui as balaustradas, os jardins e o impactante Pavilhão do Chá.

A praça, que homenageia o primeiro governador paraibano pós-República, deposto durante o descontrole político nacional que se seguiu à queda de Deodoro da Fonseca, ela não foi equipada originalmente com o pavilhão.


A primeira versão, ainda em 1917, quando de sua inauguração, reservava àquele espaço um rinque de patinação, o que revela uma certa inclinação por costumes modernos da então cidade de Parahyba. O governo era o de Camilo de Holanda.

Após a posse de João Pessoa, em 1928, gostos britânicos do novo presidente do estado apontaram para uma reformulação do projeto original. Assim, ao invés da área recreativa, entraria em cena um pavilhão destinado a chás da tarde. O estilo oriental do prédio celebra, por isso, a origem chinesa do chá.

Como cruel ironia do destino, João Pessoa, assassinado em julho de 1930, não conheceu o pavilhão pronto e funcionando, o que só foi concretizado em 1931, no governo Antenor Navarro, tendo ao longo do tempo uma utilização errática.

Para os próximos dias, desde que dê certo os propósitos do Sistema S, o pavilhão, a exemplo do que está acontecendo com o coreto, deve sofrer intervenção e passar por mais uma requalificação. E só Deus sabe a necessidade de que vingue!


Ainda o 18 Andares

14 jan. 2026

Quem olha o edifício Presidente João Pessoa assim, cravado no Centro Histórico de João Pessoa, região onde predomina uma tradicional construção horizontal, percebe a desarmonia arquitetônica com o seu derredor.

A sensação é ainda maior por conta de o prédio estar localizado na mais antiga rua de João Pessoa, a atual General Osório (nascida Rua Nova) e na esquina com outro caminho urbano igualmente antigo composto pelo Beco da Misericórdia e a Ladeira da Carioca (artéria toda nomeada hoje como Rua Peregrino de Carvalho).


Edifício Presidente João Pessoa | foto disponibilizada pelo autor

Contudo, o prédio, mais tradicionalmente conhecido como 18 Andares, tem um enredo que termina lhe reservando papel histórico específico, qual tenha sido o de marcar o início de uma pretendida verticalização da cidade.

Apesar de a avenida Epitácio Pessoa já ter sido, na época, pavimentada, e um certo movimento de ocupação urbana já mostrar a tendência de um deslocamento na direção do Leste, a modernização vertical da cidade parecia ser vocação do Centro.

Assim, ao menos na visão dos construtores do 18 Andares, uma obra erguida entre os anos de 1957 e 1962, sob os auspícios do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários (IAPB).


Para isso, foi ao chão o imóvel que sediava a Escola de Música Antenor Navarro e o Conservatório de Canto Orfeônico, uma casa de janelas, telhado e platibanda ao estilo de outras existentes na rua.

Como marcos históricos, além da altura, um verdadeiro arranha-céu, para os padrões pessoenses, ele acabou sendo celebrado como um sinal de progresso, inclusive no quesito moradia.

Seus ocupantes tiveram a chance de abandonar a tradição de residir em casas térreas para a de viver em apartamentos, tão ao costume das grandes cidades brasileiras, a exemplo da bem próxima Recife.

Mesmo enfrentando problemas de estrutura que, de vez em quando, implicam em mudanças nem sempre ao gosto dos moradores, o 18 Andares guarda décadas de história da cidade, com efeito simbólico especial a quem residiu no Centro da cidade.


Os Carmelitas e o Palácio do Bispo

15 jan. 2026

Entre as primeiras ordens religiosas que desembarcaram na Paraíba estava a dos Carmelitas. Isso aconteceu antes que findasse o Século XVI, o da conquista do novo território pelos portugueses.

Tão logo chegaram, deram início à construção de seus espaços, embora a conclusão do conjunto da obra apenas tenha ocorrido no Século XVIII (ao tempo de outras importantes igrejas históricas da cidade, algumas delas não mais existentes, porque derrubadas, uma outra história).


Conjunto Carmelita, e ao lado esquerdo o Palácio do Bispo. | foto disponibilizada pelo autor


O conjunto carmelita completo, quando começou a funcionar plenamente, era composto de convento, Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Capela de Santa Tereza D’Ávila ou Santa Tereza de Jesus e Casa de Oração.

Como resultado de dificuldades enfrentadas pela ordem carmelita, o Século XIX viu o convento se transformar até em quartel. Enfim, segundo o Memória João Pessoa, da UFPB, em 1839 a ordem teria perdido a sua (do convento) propriedade.

Quando, em 1894, chegou o primeiro bispo da Paraíba, o paraibano de Areia Dom Adauto de Miranda Henriques, essa era a situação legal do convento. Acontece que o bispo veio sem ter onde morar oficialmente.

Assim, para começo dos trabalhos diocesanos, ocupou o palacete em que residira o Barão de Abiahy (1813-1892), na esquina das atuais Rua das Trincheiras com Praça Venâncio Neiva, onde hoje funciona a Delegacia Regional do Trabalho.

Depois, passou a morar em prédio pertencente ao conjunto franciscano, no qual depois funcionaram o Diocesano Pio X e o Arquidiocesano Pio XII, hoje aguardando providências revitalizadoras.

Já bem no início do Século XX, a Diocese assumiu a titularidade do prédio do antigo convento aos Carmelitas que, após significativas reformas, mais na fachada do que na parte interior, passou a servir como Palácio do Bispo.

O prédio reformado, com estilo frontal diversos do restante do conjunto carmelita, virou não somente residência episcopal, mas também espaço centralizador das atividades burocráticas da Cúria.


O velho prédio do Colégio dos Jesuítas

16 jan. 2026

As construções que ficam no lado Oeste da atual Praça João Pessoa têm origem na atuação da Companhia de Jesus na cidade, a partir do Século XVI, ao mesmo tempo em que outras ordens religiosas edificavam em locais diversos da atual João Pessoa.


foto disponibilizada pelo autor


Ao fim dos trabalhos, no Século XVIII, os Jesuítas haviam erguido, no local, três prédios marcantes para a história da cidade: o convento, a Igreja de São Gonçalo (depois, de Nossa Senhora da Conceição dois Militares, derrubada em 1929) e o Colégio.

Em 1759, no reinado de Dom José I, a Ordem dos Jesuítas foi expulsa do Brasil, por iniciativa do poderoso ministro português, o Marquês de Pombal. Confiscados, os bens dos religiosos passaram ao domínio da Coroa.

Ainda naquele século, o prédio onde funcionou o convento da Ordem foi transformado em Palácio do Governo, o que valeu até 2024. O do antigo colégio foi ocupado por repartições coloniais e até pela Assembleia Provincial.

Em 1837, criado um ano antes, o Lyceu Paraibano se transferiu para o local. 100 anos depois, o Lyceu ganhou prédio novo e próprio na recém-construída Avenida Getúlio Vargas, para onde se mudou.

Na década de 1950, valendo até 2018, o prédio passou a ser endereço da Faculdade de Direito, atravessando períodos de unidade autônoma, e, com o tempo, de parte da Universidade Federal da Paraíba.

Ano passado (2025), o ex-Palácio da Redenção foi revitalizado e requalificado, virando um providencial Museu de História da Paraíba. Assim, o prédio do antigo Colégio dos Jesuítas ficou muito exposto, clamando por intervenções físicas.

Ele ainda pertence à Universidade Federal da Paraíba, mas, nesses dias, um anúncio compartilhado entre a reitora Terezinha Domiciano e o governador João Azevedo garantiu sua revitalização e possível requalificação, pelo estado.

Com a proclamação, ganha força a possibilidade de um bom destino para o prédio, mantida, claro, sua arquitetura histórica, como é praxe nos procedimentos de intervenção em obras tombadas, como é o caso.

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS

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Sobre o autor

Sergio Botelho é jornalista e escritor, membro da União Brasileira de Escritores. Iniciou sua carreira no final dos anos 1970, na redação do jornal O Norte. Atuou no jornalismo diário em diversos meios de comunicação paraibanos, seja como editor, colunista político ou âncora. Desempenhou atividades enquanto assessor de imprensa em instituições renomadas como a Universidade Federal da Paraíba e o Ministério Público de Rondônia.  Publicou os livros “Memórias da Cidade de João Pessoa” (2024), e “João Pessoa, uma viagem sentimental” (2025).

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