Lá vem o vento
O vento atravessa lugares e aproxima distâncias, carregando histórias.
O vento chegou cedo à cidade, passou pela janela de uma casa e encontrou uma mulher sentada à mesa, trabalhando com as mãos. Ali havia sementes, linhas, retalhos, papéis e uma xícara de café.
— Juntando coisas.
— Pra quê?
— Para juntar pessoas.
O vento ouviu e levou aquelas frases consigo.
Dobrou a esquina e encontrou alguém lendo debaixo de uma árvore. Mexeu nas páginas do livro e uma palavra escapou: encontro.
Mais adiante havia gente plantando, pessoas que conheciam o tempo da terra, que sabiam escolher as sementes. Alguém trouxe água, outro chegou com uma história. Cada um sabia uma coisa, juntos sabiam muito. E o vento levou mais uma palavra consigo: partilha.
Continuou seu percurso e entrou numa sala onde algumas pessoas conversavam. Falavam sobre arte, alimento e território. E, de repente:
— Onde começa uma obra?
Silêncio.
— No encontro, na experiência, naquilo que recebemos de alguém.
O vento gostou da conversa e levou tudo consigo. Aos poucos percebeu que carregava uma espécie de coleção feita de encontros e histórias que continuavam circulando por muitos lugares.
É assim também com a arte. Uma ideia segue de uma mão para outra e conta uma história atravessada por gerações. Um saber encontra outro saber. Uma obra continua seu percurso.
No fim da tarde, o vento chega ao mar carregando tudo o que havia encontrado pelo caminho.
Deixa que as histórias sigam, encontrando outras pessoas e outros lugares.
Lá vai o vento.

