Crônica de domingo, 1º de novembro de 2026
Paloma Jorge Amado
Foi nos últimos anos do século XIX. João, filho de José e de Maria do Espírito Santo vivia com os pais em Estância, cidade de Sergipe, sua terra natal. Rapaz novo, apaixonou-se perdidamente por Mariazinha, moça delicada e bonita que ficava na janela, bem ali na vizinhança. O namoro se dava à moda daqueles tempos, com ele passando na calçada em frente, cumprimentando com um menear de cabeça, um sorriso de cá, outro respondendo de lá. Levavam um tempo nesse balé de ir e vir, até que ele tomou coragem, bateu à porta e pediu para falar com o dono da casa. O pai de Mariazinha veio com cara de poucos amigos, mas ouviu o que o jovem queria dizer, aliás, pedir. Pedir a mão de sua filha em casamento. Passa daqui pra fora já, que não vou entregar minha filha a um pobretão que não tem onde cair morto. Ele ficou humilhado, triste de dar dó. Mariazinha não chegou mais à janela, certamente a proibiram. Nem ver seu rosto de longe ele podia mais.
Passaram pela cidade os irmãos Leal, Fortunato e Firmo, chegados da Bahia para visitar o amigo, que já sabiam estar sofrendo do mal de amor. Fizeram-lhe um convite para que seguisse com eles diretamente para o Sul, onde a luta pelas terras do cacau (dizem que são maravilhosas, renderão frutos de ouro) estava começando. Nada como se embrenhar nas matas com um fuzil nas mãos para esquecer palavras duras e coração em frangalhos.
E assim João seguiu os amigos, conheceu os outros irmãos e a irmã Eulália, que ajudava com as coisas da casa, enquanto os homens iam para a batalha pelas terras.
Os Leal eram filhos de Emília Petronilha, uma indígena Pataxó, roubada da tribo quando ainda adolescente. O assunto não era muito comentado na família. Soube de toda história por Eulália, que sempre repetia ter sido sua mãe caçada a dente de cachorro, laçada e amarrada. Ela era ainda menina e fizeram mal a ela... Teve oito filhos, alguns, amigos de João, estavam na luta com ele. A moça Eulália era a filha solteira que cuidava dos irmãos.
Foi longa a estadia nas terras grapiúnas, hoje o município de Itabuna, até conseguirem demarcar cada um deles o seu quinhão.
Armado de toda a documentação, o número de alqueires, o título de fazendeiro (ainda não era chamado de Coronel), João voltou a Estância para esfregar a Fazenda nas fuças do pai de Mariazinha e finalmente casar com ela. Mas foi muito o tempo que passou fora, e ao chegar ficou logo sabendo do casório e do filho já nascido. Adeus, meu amor, adeus para sempre!
No mesmo pé que veio, voltou. Ia trabalhar feito um louco e enterrar aquele amor no pé de uma jaqueira, e lembrar dela somente ao comer os bagos doces de mel.
Um dia, Fortunato chamou João, não queria consolar o amigo, mas sim resolver este problema de uma vez por todas. O compadre já ia fazer 30 anos, estava velho, precisava casar. Por outro lado, a irmã Eulália também era solteira...
É preciso, antes de dar prosseguimento à história, contar o lado dela, que, por incrível que possa parecer, era igual ao dele. Não lembro o nome do rapazinho por quem ela foi perdidamente apaixonada, por quem suspirava, esperando na janela que ele passasse do outro lado da calçada. Assim como o pai de Mariazinha, os irmãos Leal deram um passa-fora no pobretão sem eira nem beira que não tinha onde cair morto. O sofrimento dela, nem por ser mais contido, era menor. Como boa Pataxó que era, não saiu chorando, se fazendo de vítima. O pranto era silencioso, mas constante.
Mas bem... Eulália também era solteira! Eulália já está no barricão, mas é moça bonita e trabalhadeira, você daqui a pouco não encontra mais quem lhe queira. São tão amigos, trocam confidências, porque não se casam? Foram conversar, os dois, com a franqueza de sempre, a imensa amizade. Acharam que seria bom para ambos passar juntos o resto de suas vidas e marcaram a data do casório. O ano era 1910, Eulália tinha 26 e João 30 anos. Em 1912 nasceu o primeiro filho, Jorge, na fazenda Auricídia. Filho do amor quase que fraterno de dois amigos íntimos. E quando digo fraterno, não pensem em incesto, pensem em respeito e carinho. Depois vieram mais 3 meninos. Quando as amigas da mesma idade estavam terminando, Lalu começava e fazia filhos formidáveis. Foram amigos a vida toda, e é possível que um amor tenha nascido aí. Sempre juntos, solidários, cúmplices na batalha diária.
Quando chegamos do exílio na Tchecoslováquia, eu tinha apenas 10 meses. Fomos morar com eles em Copacabana. Lalu, que era como vovó Eulália era chamada, adorava João Jorge, meu avô João me protegia, seu colo era o ninho de afeto da menina assustada que eu era.
Sinto muita saudade deles.
Falando de Lalu, quero lembrar aos amigos que nossa luta continua. Por puro ódio e vingança os indígenas brasileiros estão sofrendo mais do que antes, de maneira bárbara. Nas gravações que chegaram a público, a intenção de dizimar é dita claramente, matam e torturam com requintes de maldade. Nossa luta continua. Ganhamos uma grande batalha, mas outras importantes estão aí nos esperando. #pelosdireitosdospovosindigenas
Bom domingo a todos.

