Caniço

Era dia da festa de Conceição da Praia e eu estava bem do meu sentada aqui na sala, quando ouvi cantar embaixo de minha janela. Lá vinha uma procissão singela, trazendo andor pequeno e bonito.

Acervo da autora

Cantavam:

Santa Bárbara, me abençoai

Eu vim de São Lázaro, para lhe saudar

Depois estouro de rojões e muitos vivas:

Viva Santa Bárbara!!!

Vivô!!!

Viva São Lázaro!!!!

Vivô!!!

E viva Nossa Senhora da Conceição, que hoje é o dia dela!!!

Vivô!!!

Fui para o computador escrever e fiquei ouvindo o foguetório que já ía lá adiante. Moro ao lado da Igreja de São Lázaro, e volta e meia tenho boas surpresas. Sempre me lembro de Chico Buarque e sua música A permuta dos santos.

Nesse dia a procissão me levou longe, aos meus 17 anos. O dia 8 de dezembro marcava o início das festas de largo. A festa da Conceição da Praia, por ser a primeira, era das mais animadas. Foi numa delas que começou meu namoro com Raimundo Caniço, um estudante de medicina muito conhecido na cidade do Salvador. Naquele então Salvador tinha pouco mais de quinhentos mil habitantes, todo mundo se conhecia. Mas Caniço era especialmente conhecido, pessoa ótima, inteligente e descontraído, por ele terminei um namoro de 4 anos com um argentino. A paixão durou todo o tempo das festas: Conceição da Praia, Boa Viagem, Ribeira, Bonfim, 2 de Fevereiro, culminando com o carnaval.

Mamãe estava um pouco escandalizada por eu trocar um almofadinha portenho, com gomalina no cabelo e presepadas no puxar a cadeira – rapaz muito fino, ela dizia — , pronto para assumir a justiça argentina (virou juiz de menores), por um varapau, desengonçado, com cabelo black power, que deus-sabe-lá se estuda medicina mesmo (virou pneumologista competentíssimo, professor da UNICAMP). Papai olhava de longe e ria das preocupações de mamãe. Ele estava muito feliz em me ver namorando um mulato, quem sabe assim eu melhoraria a mistura da família.

Neste carnaval pintamos e bordamos. No domingo, Caniço chegou cedo em minha casa para irmos juntos pegar Pedro Costa, nosso camaradinho (com quem me casei anos depois... Vão desculpando, minha vida amorosa foi complicada...) no Palácio de Ondina. Ele era hóspede de Luiz Viana Filho, então governador, e tinha se enturmado conosco. Quando Caniço entrou, mamãe quase caiu dura. Ele estava de mortalha azul do bloco do Jacu, cujo lema era: Há Jacu no pau! (naquele tempo abadá não existia) e tinha enfiado uma calçola de mulher na cabeça, pelo buraco das pernas saiam tufos de cabelo.

Papai quase morre de tanto rir quando ouviu mamãe suspirar, ao saber aonde íamos:

— O que Juju Viana não vai dizer?

Dona Juju, a primeira-dama do Estado, não disse nada, mas olhou muito. Nós não nos incomodamos e fomos em frente, para a Praça Castro Alves, tomar cerveja em copinhos de vidro, o famoso copo americano, pular atrás do trio elétrico, sem corda, sem marketing, sem nada.

Caniço morreu prematuramente, meu casamento com Pedro Costa durou 26 anos. Casei com o argentino, aquele mesmo de antes, quarenta anos depois, mas ele continuava almofadinha e não durou muito. Ia fazer um livro sobre esse casamento tardio, comecei a ilustrar, mas achei depois que não valia a pena ficar relembrando o assunto, a não ser de passagem e com bom humor, como hoje.

E viva dona Zélia, filha dileta de Oxum, a quem dei muitos sustos pela vida!

Quanta saudade dela e de Caniço!

Bom domingo a todos

crônicas de domingo

〰️

crônicas de domingo 〰️

Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

Próximo
Próximo

Conversas da Câmara debatem o soft power português no espaço luso-brasileiro