Caixa de fazer gente

A caixa de fazer gente não é quadrada, muito pelo contrário, é redonda e pode ir mudando de forma à medida do seu labor. Por dentro, maquinário complexo de engrenagens sutis, capazes de uma alquimia perfeita dos fluidos que carregam químicas transformadoras. Para os que estudam o fenômeno, entendê-lo não é difícil. Para quem, como eu, só pensa em poesia, imaginar o mar oceano dentro de uma caixa redonda, que tem a orientá-la um ponto a que chamamos de umbigo, o processo é o mais encantador dos mistérios.

Acervo da autora

Dona Myriam era bonita. Bonita e poeta. Dona de uma caixa de fazer gente muito poderosa, fez três meninos e uma menina. No seu mar interno colocou tanta poesia, que a menina Ângela nasceu formosa e inspirada. Inspirada e inspiradora de tantas benquerenças. Dava gosto de vê-la menina, dá alegria vê-la mulher plena.

A caixa de fazer gente de Ângela caprichou na sua tarefa. Tarefa única e por isso mesmo tão perfeita. No seu oceano de dentro tinha muita luz e um calor aconchegante desses capazes de tornar em mel o líquido ácido, em balé delicado os movimentos da criação. Chegou um dia a Eduarda! Melhor dizer Dudinha, que os apelidos trazem em si uma dose grande de afeto. Ela havia de estudar e entender que medicina e poesia são praticamente a mesma coisa.

Tão esguia e delicada, Dudinha concentrou sua força na caixa redonda de umbigo, onde um dia fez nadar Marina em suas águas. E que águas! Maré de ondas intensas, daquelas que trazem para a alquimia do momento a esperteza e a sabedoria. A menina já veio de olho aberto, energia transbordante. Passou a reinar absoluta neste matriarcado poderoso.

Virge Santa! A caixa de Dudinha está inchando outra vez! Cresce a olhos vistos, movimentos da maré trazendo o de comer, o de crescer, o de embelezar, o de poesia, o de pensar, para encantar ainda mais toda a gente, sobretudo Marina, sua irmã. Isabela do narizinho arrebitado vem aí, pessoal! Muitos brindes no céu dos baianos, onde dona Myriam já escreveu um poema, e seus amigos cantaram músicas de Caymmi, começando por Marina Morena, para alegrar a menininha.

É preciso lembrar que a caixa não funciona sem uma certa – e fundamental – ajuda masculina. Não posso por um ponto final nestas maltraçadas sem pensar e nem agradecer a participação de Carlos, João e Thiago, todos pessoas ótimas e de reconhecida competência nesse lindo processo de criação de gente. Obrigada!

E finalmente, que maravilhosa caixa de fazer gente tinha dona Beatriz Pondé, matriz de todas essas mulheres tão especiais! Era ouro sobre azul!

Bom domingo a todos. Já dizia Vadinho: Vamos fazer nenem! Foi Deus quem mandou.

crônicas de domingo

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Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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