Adeus António Lobo Antunes
A literatura da língua portuguesa perdeu hoje um dos seus grandes artesãos. Morreu em Lisboa o escritor António Lobo Antunes, autor de uma obra profunda e exigente que marcou decisivamente a ficção contemporânea em português.
Médico psiquiatra de formação, nascido em Lisboa em 1942, Lobo Antunes transformou a experiência da vida — e em particular da guerra colonial em Angola — numa das mais intensas explorações literárias da memória, da culpa e da fragilidade humana. Desde a publicação de Memória de Elefante (1979) e Os Cus de Judas (1979), a sua escrita revelou uma voz singular, capaz de penetrar nas zonas mais íntimas da consciência. Ao longo de mais de quatro décadas publicou dezenas de romances que se tornaram referência incontornável da literatura europeia.
Distinguido com o Prémio Camões, o maior reconhecimento literário da língua portuguesa, Lobo Antunes construiu uma obra que atravessa gerações de leitores e continua a desafiar a própria forma do romance. O seu estilo — denso, musical, profundamente humano — ensinou-nos que a literatura pode ser ao mesmo tempo rigor intelectual e gesto de compaixão.
Mas talvez nenhuma frase resuma melhor o homem do que aquela que tantas vezes repetiu: estava coberto de glória, dizia, mas o que verdadeiramente desejava era apenas escrever bons livros.
A Associação Portugal Brasil 200 anos presta homenagem a António Lobo Antunes como um dos grandes construtores da casa comum da língua portuguesa. A sua obra permanecerá como um território de encontro entre leitores de todos os lugares onde o português se tornou voz, memória e imaginação.
Neste momento de despedida, celebramos não apenas um escritor extraordinário, mas também a permanência de uma literatura que continua a lembrar-nos que a língua é uma pátria maior do que qualquer fronteira.
À família, aos amigos e aos leitores de todo o mundo, a Associação Portugal Brasil 200 anos apresenta as suas mais sentidas condolências.

