A língua portuguesa precisa de menos solenidade e mais aeroporto
O Dia Mundial da Língua Portuguesa revela a necessidade de menos cerimônia e mais pontes reais que permitam o trânsito livre de livros, ideias e sotaques
O Dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de maio, aproxima-se outra vez, com a sua bela vocação para discursos, fotografias oficiais, salões nobres e palavras como "patrimônio", "diversidade" e "futuro comum". Nada contra. Sou português, portanto respeito solenidades. Vivo no Brasil há tempo suficiente para saber que uma cerimônia, quando bem servida de café e microfone, pode salvar uma manhã inteira. Mas há qualquer coisa na língua portuguesa que escapa sempre ao protocolo. Felizmente.
A língua portuguesa foi proclamada pela Unesco como dia mundial em 2019, depois de a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já ter escolhido o 5 de maio, em 2009, para celebrar a língua e as culturas que nela se reconhecem.
Brasília entende isso melhor do que parece. Aqui chegam sotaques de todos os Brasis. O "oxente" encontra o "bah", o "uai" atravessa o Eixo Monumental, o "meu rei" entra discretamente no Itamaraty, e o "pois não" português tenta sobreviver sem parecer antiquado. Brasília foi desenhada para organizar o país, mas a língua, como sempre, desorganiza com talento. É talvez a sua maior virtude democrática.
Há quem pense que celebrar a língua portuguesa é defender uma herança. É pouco. Herança é aquilo que se recebe; língua é aquilo que se continua a inventar. O português não é um museu com bandeiras arrumadas por ordem alfabética. É uma feira, uma biblioteca, uma fronteira, uma canção, uma piada, uma carta de amor mal escrita e um despacho ministerial excessivamente longo.
É Camões, sim, mas também Cartola. É Machado, Clarice, Pepetela, Mia Couto, Sophia, Conceição Evaristo, Germano Almeida, José Craveirinha, Paulina Chiziane, Chico Buarque, Adélia Prado, Ondjaki e aquela senhora de Ceilândia que resume em três frases o que muitos seminários não conseguem explicar em três dias.
O Brasil, convém lembrar, é hoje a grande potência demográfica da língua portuguesa. Isso não lhe dá propriedade sobre a língua, mas dá responsabilidade. Portugal guarda a origem histórica; o Brasil dá-lhe escala, invenção, ruído e desobediência. Angola e Moçambique dão-lhe futuro africano. Cabo Verde dá-lhe música e travessia. Timor dá-lhe resistência.
Talvez por isso Brasília seja um bom lugar para pensar o português. A cidade nasceu de um plano, mas só existe plenamente porque foi ocupada pela vida. A língua também. Gramáticos fazem avenidas; o povo inventa atalhos. Academias fixam normas; crianças desfazem-nas no recreio. Estados assinam acordos; escritores desobedecem com elegância. A língua portuguesa continua viva porque nunca coube inteiramente em Portugal, nem no Brasil, nem em nenhuma sala de conferências com tradução simultânea.
Publicado originalmente no Correio Braziliense, confira a crônica completa abaixo.

