Milagres que vivi – O telefonema


imagem fornecida pela autora

Quando conheci Mãe Carmen, eu era uma menina e ela uma moça linda. Nós a chamávamos de Nenem, filha caçula de Mãe Menininha. Por 60 anos tivemos um convívio afetuoso. Estava lá quando levei meus filhos para Menininha abençoar e meus netos para ficarem no seu regaço. Sua irmã, Cleusa, era a Mãe de Santo quando os 80 anos de papai foram comemorados no Terreiro e ela chamou minha filha para fazer as obrigações de Oxossi. Ela era a Mãe Pequena, foi quem olhou por minha iaô nos tempos da camarinha. Virou Dofona com os cuidados seus. Era a doçura e o carinho, pessoa mais gentil nunca existiu.

Mas bem, é com ela, que nos deixou no último Natal, às vésperas dos 99 anos, que aconteceu o mais recente milagre que vivi. Foi no ano passado, precisamente no dia 4 de maio de 2025. Eu estava bem do meu em casa, quando o celular tocou e vi no visor que era Mãe Carmen. Achei estranho, raramente nos falávamos por telefone. Atendi e ela perguntou se era eu mesma quem estava falando. Sou sim, minha Mãe. Que alegria ouvi-la. Ela tinha a voz um pouco aflita e me perguntou se eu estava bem. Estou! Bem de saúde, ela queria dizer. Que curioso, pensei, eu não contei a ninguém da pequena cirurgia que faria no dia seguinte. Que engraçado perguntar isso, minha Mãe, eu estou bem mas vou tirar um melanoma das costas amanhã cedo. Pronto, minha filhinha, já está tudo certo!, ela disse. Obaluayê já está sabendo e vai guiar o médico. Oxalá também está do seu lado, não larga nunca esta filha querida. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Obrigada, minha Mãe, obrigada por sua intervenção. Não me agradeça, meu bem, agradeça aos orixás. Foi assim que aconteceu:

Eu estava aqui descansando e resolvi olhar se tinha alguma mensagem para mim. Fui passando o dedo pela lista dos meus, quando o telefone discou, olhei e o dedo tinha apertado o seu nome. Vi logo que Oxalá me mandava falar com você, e era mesmo urgente. Amanhã vai dar tudo certo, meu bem, todos estarão com você lá no hospital.

E assim foi. Meu nervoso passou, fiquei em paz, a cirurgia foi simples e fácil, tudo retirado, não corro mais riscos. A querida Dra. Paixão, com o seu saber e os instrumentos precisos, tendo Obaluayê como um intimo auxiliar, só privilégio.

Naquela noite do dia 4, na cama, tentand o acalmar as ideias para poder dormir, conversei com meu pai contando do telefonema. Pai, Nenem já está com 98 anos e, sem querer, me ligou no celular em nome de Oxalá. Como explicar? Ouvi sua voz linda me dizendo: Já disse para você, minha filha, não há o que explicar, basta acreditar, do mesmo jeito que você acredita que eu, sua mãe e Carybé estamos aqui olhando por você. Se Oxalá e Omolu também vão ao hospital, melhor ainda.

Muita saudade de Mãe Carmen, nossa Nenem, a bondade feita em mulher.

Bom domingo a todos.


Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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