O prestigiado Hotel Globo e outras histórias
o prestigiado hotel globo
17 jan. 2026
Atualmente, entre os principais destaques turísticos de João Pessoa está o Hotel Globo, no Largo de São Frei Pedro Gonçalves. Tanto assim que fez parte das minhas primeiras crônicas memoriais. Foi, portanto, incluída no livro Memórias da Cidade de João Pessoa (o da foto), publicado em janeiro de 2024, o primeiro de três que já escrevi sobre histórias pessoenses.
O brilho do Globo, há muito tempo não mais um hotel, tem tudo a ver com sua beleza, localização e história. Trata-se de uma construção de estilo eclético, com influências do neoclássico, do art nouveau e do art déco, características comuns a muitas edificações da época em João Pessoa.
Capa do livro Memórias da Cidade de João Pessoa, de Sérgio Botelho | foto disponibilizada pelo autor
Está localizado em uma parte elevada junto à margem direita do Sanhauá, muito provavelmente no espaço onde se ergueu a primeira edificação de maior relevância da Cidade Real de Nossa Senhora das Neves: um fortim que serviu de residência aos primeiros capitães-mores da nova capitania. Das balaustradas do Hotel Globo descortina-se um pôr do sol espetacular.
Quanto à sua história, está entre os primeiros hotéis de maior porte da cidade, fruto da iniciativa de Henrique Siqueira, conhecido como Marinheiro, um investidor (ou, como se dizia então, um capitalista).
Há registros de sua existência já na década de 1910, funcionando na atual Praça XV de Novembro. Em 1929, a nova sede do Hotel Globo foi construída no local onde o prédio ainda hoje se destaca.
Em ambas as versões, na praça e no largo, o estabelecimento ficava bem próximo ao Porto do Capim, porta de entrada e saída da cidade para quem vinha ou seguia até outros países. Com as mudanças no circuito econômico e urbano de João Pessoa, e com a perda de protagonismo da área portuária do Varadouro, o hotel entrou em decadência, transformando-se na beleza memorial que hoje o reveste.
Clube dos Diários
18 jan. 2026
Prossigo, neste domingo, 18, revisitando meus livros sobre histórias de João Pessoa. Até agora, foram três. Para março próximo, está programado um novo, com título em discussão.
Este segundo livro, João Pessoa - Uma Viagem Sentimental, foi lançado em fevereiro de 2025, honrosamente prefaciado, assim como os demais, pelo escritor, professor e poeta Hildeberto Barbosa Filho.
Capa do livro Uma Viagem Sentimental, de Sérgio Botelho | foto disponibilizada pelo autor
Nele, abordo amenidades pessoenses, locais de fortes conexões afetivas a muitos que viveram ou ainda vivem na cidade. Falo de festas tradicionais, de clubes, de bares, de restaurantes, de marcos de alegria na cidade.
Um dos textos aborda o velho Clube dos Diários (que se vê na imagem), da década de 1920, nas vizinhanças da antiquíssima Igreja da Misericórdia e do Cine Rio Branco (depois Rex), esquina da Peregrino de Carvalho com a Duque de Caxias.
Inaugurado à época do governo João Suassuna (1924-1928), ele, o aniversariante daquele dia (19 de janeiro de 1926), teve direito à aposição de uma imagem sua no salão de entrada.
O clube tomou o lugar de um sobrado, do qual foram aproveitadas as paredes, resultando num prédio “amplo e imponente que ostenta um maior efeito à noite, com o fulgor de sua iluminação interna”, conforme reportagem de A União.
Fundado um ano antes, a partir de um racha na direção do Esporte Clube Cabo Branco, com sede em Jaguaribe, o Clube dos Diários atraiu a chamada fina flor da sociedade da então cidade da Parahyba, atual João Pessoa.
Seu primeiro presidente foi o prefeito da cidade, à época, João Maurício de Medeiros, que hoje dá nome à avenida litorânea do bairro de Manaíra, ele que, em sua administração municipal, deu grande atenção à orla pessoense.
No fim da década de 1930, o racha foi desfeito, e a sede do Clube dos Diários passou a ser ocupada oficialmente pelo Esporte Clube Cabo Branco. Ficou assim até o início dos anos 2000, quando uma crise no clube lançou o prédio a um limbo, ainda sem desfecho feliz.
Duarte da Silveira
19 jan. 2026
Neste meu texto de hoje, segunda-feira, 19, revisito o meu último livro, João Pessoa Personagens no Tempo, o terceiro, lançado em abril do ano passado, feliz ou infelizmente, uma edição completamente esgotada (à luz de sugestões, em março, a Deus querer, tem outro livro, já em fase final de edição dos originais).
Capa do livro Personagens no Tempo, de Sérgio Botelho | foto disponibilizada pelo autor
Da releitura da obra, aproveito para recuperar, brevemente, a história de um dos fundadores da Capitania da Paraíba, Duarte Gomes da Silveira, cujos restos mortais, segundo relatos históricos, foram sepultados em mausoléu na vetusta Igreja da Misericórdia.
Aliás, a referida Igreja, em estilo maneirista, portanto, do início da arquitetura barroca, foi obra financiada por Duarte da Silveira, assim como muitas das primeiras casas construídas na cidade.
Casado com Juvência Tavares (também oficialmente sepultada no mesmo mausoléu), filha de João Tavares, primeiro capitão-mor da Paraíba, Silveira era natural de Olinda, nascido por volta de 1555. A partir de 1585, ele fundou engenho na Paraíba.
Na condição de senhor de engenho, atravessou todo o período de dominação holandesa na Paraíba, negociando interesses diretamente com o Conde Maurício de Nassau, fixado em Recife.
Isso não impediu que Silveira experimentasse intercessões até judiciais por parte dos holandeses. Como nada ficou provado, ele voltou a dirigir o engenho paraibano, até a sua morte, em 1654, ainda com a Paraíba sob domínio batavo, que durou oficialmente entre 1634 e 1654.
Entre as casas que financiou a interessados em se mudar para a Paraíba, estava uma para ele próprio. Pelas descrições, seria no local onde posteriormente foi erguido o Colégio Nossa Senhora das Neves. Esse intento ele não levou a cabo.
Antes de morrer, Duarte da Silveira criou o Morgado do Salvador do Mundo, uma espécie de blindagem legalizada em cartório contra a alienação dos bens que conquistou em vida, ao qual se vinculavam os possíveis herdeiros.
(A imagem que ilustra o texto apresenta a capa do livro João Pessoa Personagens no Tempo, em foto esmaecida por cima da que registra o túmulo de Duarte da Silveira, na Igreja da Misericórdia).
Revitalização no Centro Histórico
20 jan. 2026
Nesta segunda-feira, 19, acompanhei a entrega do prédio localizado entre as praças Aristides Lobo e Pedro Américo. A obra na cidade baixa é relevante para a preservação histórica da capital paraibana. O imóvel agora revitalizado servirá como a nova sede do Palácio dos Despachos do Governo da Paraíba.
| foto disponibilizada pelo autor
Ao longo do tempo, o prédio teve diversas funções, detalhadas convenientemente em painéis no hall de entrada (providência elementar quando se trata de local histórico, assim como o poder público municipal deveria fazer com relação a ruas, praças, prédios e monumentos do Centro Histórico) por orientação da Secretaria de Estado da Cultura, atendendo recomendação do próprio governador, segundo me informou o secretário Pedro Santos.
Antes de ser Comando da Polícia Militar, sua última serventia, o local abrigou a Assembleia Legislativa entre 1947 e 1973. Agora, o governador cumprirá expediente administrativo normal no edifício, que também receberá as secretarias estratégicas estaduais.
Mas o prédio tem muito mais história. Em termos de antiguidade, a construção só perde para o prédio defronte, do outro lado da Praça Pedro Américo, onde funciona o Primeiro Batalhão da PM (aliás, pintado de novo e funcionando). Enquanto o quartel remete ao Brasil Colônia, o prédio recém-inaugurado data do Brasil Império.
O projeto original de 1853 previa um teatro público, mas a ideia nunca saiu do papel. As obras foram retomadas em 1864 e concluídas apenas em 1868 para finalidades civis. O imóvel sediou o Tesouro Estadual, a Escola Normal, o Tribunal de Justiça e o Palácio das Secretarias. Durante o governo do presidente João Pessoa (1928-1930), a edificação passou por uma reforma significativa, quando ganhou mais dois andares.
Desta vez, após anos de uso militar, o espaço retoma sua vocação administrativa civil com a entrega realizada ontem. Ao se somar a outras revitalizações e requalificações de prédios no Centro Histórico de João Pessoa, o governo segue marcando em favor da memória pessoense.
Duas praças de origem comum
21 jan. 2026
Na inauguração do Palácio dos Despachos, nesta segunda-feira, 19, estiveram em destaque as praças Pedro Américo e Aristides Lobo. Ambas, com uma história comum. O prédio fica exatamente entre as duas.
Antes, o espaço todo se chamava Campo do Conselheiro Diogo, a homenagear um ilustre paraibano de Pilar, que viveu durante o período imperial e que foi um dos responsáveis pelo início da construção da Estrada de Ferro Conde d’Eu, tempos depois Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima.
Praça Pedro Américo | foto disponibilizada pelo autor
Atualmente, ele é reverenciado com o nome de uma importante rua que liga o Parque Solon de Lucena às Avenidas Pedro II e João Machado, no Centro da cidade.
A Praça Pedro Américo (que homenageia um paraibano considerado entre os mais célebres pintores do Brasil, aquele do mais famoso quadro da Independência do Brasil), que já serviu como uma espécie de rodoviária interestadual, abriga prédios famosos na cidade. São eles o próprio Palácio dos Despachos, o Paço Municipal (que no momento ostenta tapume indicando intervenção física), o Quartel da PM (o mais antigo) e o do Teatro Santa Roza (esses dois últimos pintados de novo).
A Praça Aristides Lobo, que celebra um destacado republicano e abolicionista mamanguapense, de reputação nacional, já serviu como espaço preferencial dos famosos lambe-lambes. Possui uma bela, mas malcuidada balaustrada, tendo como prédio de maior realce, além de também referenciar o novo Palácio dos Despachos, o Grupo Tomaz Mindello, o primeiro desse modelo educacional posto a funcionar na atual João Pessoa.
As duas praças, a bem da verdade, não gozam de boa reputação em meio à chamada sociedade pessoense. À medida que a cidade subiu, com maior ímpeto a partir das décadas de 1920-1930, a cidade baixa inteira, e as duas praças também, perderam prestígio. Diferentemente disso, assumiram vocação mais noturna e boêmia e menos previsível.
Quem sabe o Palácio dos Despachos com seu inevitável movimento de gabinete do governador e de diversas secretarias, e segurança redobrada, mude o panorama. Seria bom danado para o Centro Histórico de João Pessoa!
O Ponto de Cem Reis em foco
22 jan. 2026
Acompanhar o processo de revitalização do Ponto de Cem Réis inevitavelmente nos envolve com o exercício da curiosidade. Por muito tempo, aquela parte do Centro funcionou como uma espécie de referencial afetivo e efetivo da cidade. Ali, durante a maior parte do Século XX, transitava o cotidiano da vida pessoense.
Ponto do Cem Reis | foto disponibilizada pelo autor
Afora servir como passagem quase obrigatória à população, o Ponto de Cem Réis forjou significante urbano forte porque oferecia serventias concretas. Em algum momento, teve o relógio que ajudava a orientar sobre o tempo de muita gente da cidade. Ali existia a parada dos bondes, que concentrava a mobilidade de uma cidade inteira. Como também o seu mais famoso hotel, com direito a barbearia na parte térrea.
Paralelamente, havia os carros de praça (os táxis antigos). Engraxates, jornaleiros, farmácia, padaria, lanchonete, cinema, bares e restaurantes, aproveitando o movimento popular diário. E ainda os autofalantes que transmitiam a programação da Rádio Tabajara, quando comprar um aparelho de rádio envolvia muita bufunfa. Teve até previdência social e de saúde.
E o cafezinho, sobretudo, virou símbolo local. Era no Alvear, no Santa Rosa ou no São Braz, cada um por sua vez, ao correr das décadas, que decisões ganhavam corpo. Era ali que se costuravam alianças, se trocavam versões, se construíam ou se destruíam reputações.
Hoje, quando se fala em revitalização, a pergunta não pode ser evitada: o que vai ser do Ponto de Cem Reis? O bonde não retorna. A cidade não se organiza mais pelo relógio de antes. Os engraxates, que dependiam de um fluxo constante e de um tipo de convivência, não têm como ocupar o mesmo lugar. E o café, como ponto diário de relações sociais e políticas, é difícil de renascer num mundo em que a cidade se espalhou, os hábitos mudaram, os encontros migraram para outros espaços, inclusive para os shoppings.
Em virtude de tudo o que foi, a curiosidade sobre o novo se impõe. Certamente haverá requalificações no Ponto de Cem Reis. Quais serão?
Abdon Felinto Milanez
23 jan. 2026
A pesquisa histórica é, antes de tudo, um trabalho gratificante. Ela nos leva a descobertas que, muitas vezes ocultas nos escaninhos do tempo, permaneciam desconhecidas da maioria das pessoas.
Fruto desse trabalho, repetindo uma prática minha de todos os dias (em textos que respeitam os limites legais ou aconselháveis de tamanho, impostos ou sugeridos pelas redes sociais), exponho hoje o que parece ser o nosso primeiro compositor a alcançar projeção nacional, um cidadão que viveu entre os Séculos XIX e XX, entre a Paraíba e o Rio de Janeiro.
Abdon Milanez | Instituto Casa do Choro
Para variar, ele pertencia ao fecundo território de Areia, terra de José Américo, de Pedro Américo e do seu irmão Aurélio, e de Horácio de Almeida e Simeão Leal, algumas figuras areenses, na condição de paraibanos pioneiros, que brilharam, no meio artístico e cultural do Brasil.
Mas também um chão que serviu de berço a figuras de relevo na política paraibana, como Álvaro Machado, João Machado e Walfredo Leal. Também, do já citado José Américo, esse último de projeção nacional.
E, ainda, na seara religiosa, de Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, o primeiro bispo e, na sequência, primeiro arcebispo da Paraíba. Um tempo, a merecer realce, de forte poder econômico dos senhores de engenhos da região.
Hoje, a ênfase é para Abdon Felinto Milanez, autor da música do Hino da Paraíba, mas cuja opereta A Donzella Theodora (a partir de um libreto do maranhense Arthur Azevedo, baseado em literatura de Cordel), o projetou no Rio de Janeiro, sede do Império, em 1886.
No enredo, Theodora, uma inteligente moça escravizada, supera as provas que lhe foram postas por sábios e autoridades, e termina salvando a si e ao seu senhor! Não é, afora a aceitação na praça carioca, que empresta brilho à autoria, um tema corajoso para a época?
Abdon Felinto Milanez (1858-1927), era formado em Engenharia, tendo ocupado cargos técnicos na área de ferrovias, obras e serviços públicos. Foi também deputado federal.
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS
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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS 〰️
Sobre o autor
Sérgio Botelho é jornalista e escritor, membro da União Brasileira de Escritores. Iniciou sua carreira no final dos anos 1970, na redação do jornal O Norte. Atuou no jornalismo diário em diversos meios de comunicação paraibanos, seja como editor, colunista político ou âncora. Desempenhou atividades enquanto assessor de imprensa em instituições renomadas como a Universidade Federal da Paraíba e o Ministério Público de Rondônia. Publicou os livros “Memórias da Cidade de João Pessoa” (2024), e “João Pessoa, uma viagem sentimental” (2025).

