Adeus querido orelhão

Hoje, 25 de janeiro, São Paulo faz anos — e a cidade aniversariante olha para o próprio passado com um misto de nostalgia e lucidez.

Há 55 anos, começavam a ser implantados os orelhões nas ruas paulistanas. Mais do que mobiliário urbano, eles foram um gesto de democratização da comunicação: voz pública, acessível, anônima e coletiva. Um telefone que não pertencia a ninguém — e, por isso mesmo, pertencia a todos.

Agora, começam a ser retirados das praças e calçadas. Não por falha de projeto, mas por excesso de futuro. A tecnologia avançou, os hábitos mudaram, a cidade trocou o som metálico da ficha pelo silêncio táctil do smartphone. É assim que o tempo age: não apaga — desloca..

Felizmente, um desses orelhões permanece. E permanece onde faz mais sentido: no jardim da casa de Chu Ming Silveira, como obra, memória e manifesto. Trata-se do protótipo apresentado pela própria autora na primeira Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 1973 — quando o design brasileiro ousava pensar o cotidiano como política pública.

Ali, o orelhão deixa de ser objeto funcional e torna-se símbolo: de uma cidade que acreditava no espaço comum, no desenho como mediação social, na arquitetura como forma de cidadania.

Retiram-se os orelhões das ruas, mas não se retira o que eles significaram. Algumas peças não sobrevivem por utilidade — sobrevivem por sentido. E São Paulo, quando lembra disso, envelhece melhor

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milagres que vivi – O telefonema