Tempo de espera


Gosto de aeroportos, especialmente quando é preciso fazer escalas durante períodos vazios e silenciosos; as madrugadas sonolentas em frente ao portão de embarque se tornam momentos preciosos, um lugar íntimo que é quase proibido. Um instante em que não se aspira nada mais que o oxigênio. 

A espera no Ponto de Ônibus do cotidiano é diferente. Quando não estamos atrasados, é o ônibus que não aparece. Não há a tranquilidade do horário marcado que determina o tempo do fazer-nada como obrigatório, enquanto se aguarda pelo trajeto que se inicia ainda quando o corpo está calmamente parado: não há nada que fazer, se não esperar. 

A espera implica em viagem programada, em deslocamento para além do ambiente conhecido, dos espaços comuns. De Sorocaba até a Manchúria, o viajante espera. 

Os segundos que antecedem a entrada em um barco, uma balsa, um trem ou um avião só atingem a tranquilidade da espera quando o movimento das pendências da vida cotidiana cessa.  

Há aqueles que insistem em produzir mesmo durante esses raros momentos, e assim, chegam aos lugares sem lembrar qualquer mínimo traço do trajeto percorrido. A espera opera por si mesma, seu silêncio embala apenas quando pode predominar livremente a mente humana. 

Uma vez me disseram que Walter Benjamin acredita que o tédio seja o descanso mais profundo da mente consciente, tal como o sono o é para o corpo inconsciente. A espera pressupõe o entediar-se, o fazer-nada, e os justifica ao mundo selvagem que oprime esses raros instantes em que o Ser  pode só ser, não preenche o espaço nem o tempo, apenas respira e observa o mundo. Sente a carne do corpo transpirar pelos segundos inexistentes que marcam, ilusória e despercebidamente, a vida passar. 

Vejo um homem sentado com uma xícara de café, meio cheia meio vazia, nem fria nem quente, com os olhos vidrados na janela à sua frente. Em seu colo, em uma posição que um leve sopro de vento o derrubaria, o tíquete de embarque com a data de hoje, horário próximo ao de agora. Ele se levanta desajeitado, meio de súbito mas com movimentos um tanto programados. Caminha na direção oposta de seu voo, com uma calma que nunca tive na vida.


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