Milagres que vivi 2: O Bori
Coluna semanal de Paloma Jorge Amado
Ouvi falar em Bori pela primeira vez quando tinha 11 anos. Estávamos de férias em Salvador, meus pais procurando casa para comprar. Combinavam com Carybé de irem, os dois casais, ao Candomblé de Mãe Senhora para fazerem juntos o bori. Achei a palavra engraçada, quis saber o que era. Papai me explicou sobre o ritual de dar de comer à cabeça, isto é, ao orixá. Uma obrigação de candomblé. Obrigação?, me espantei. Meu pai riu. É assim que se chama, meu bem, mas a gente faz de bom grado. Iriam passar a noite toda, a comida preparada para o orixá enrolada na cabeça, dormiriam em quartinhos separados, papai com Carybé, mamãe com Nancy.
Já morando na Bahia, um dia mamãe me disse que não dormiria em casa aquela noite, iria ao Axé do Opô Afonjá fazer o bori. Daquela vez iria sozinha, os outros já tinham feito. Assim, no fim da tarde, dona Zélia partiu para o candomblé.
Mãe Senhora a recebeu, lhe deu saia e bata de uma brancura imaculada, ela vestiu, tirou os sapatos, juntas foram para o quartinho onde tinha apenas uma esteira e uma moringa de água, não vá passar sede, minha filha! Deitada na esteira, a comida de Oxum na cabeça envolta por um ojá, despediu-se da Mãe. Vou deixar a porta aberta, está muito calor. Não tenha medo. Não teve medo, mas como conciliar o sono se sentia emoções tão profundas, que sempre espantavam a materialista que dizia ser. Fechou os olhos, insistiu, mas o sono não veio. Quando os abriu novamente, viu uma filha de santo de pé na porta. Pensou que Mãe Senhora tinha tido o cuidado de colocar alguém para velar seu sono, ficou com pena. Chamou: Moça... Mas ela não saiu do lugar, apenas a olhou sorrindo. Não precisa ficar aí não, vá dormir. Diga à minha Mãe que não estou com medo. Mas a moça não arredou pé. Certamente, cumpria ordens. Mamãe acabou dormindo, acordou umas vezes, a moça continuava lá. Ao levantar, de manhã, já não havia ninguém. Logo vieram buscá-la, Mãe Senhora a esperava para finalizar a obrigação e tomar café.
Banhada, roupa trocada, aproveitava aquele momento de conversa e intimidade. Comentou da filha de santo guardando sua porta a noite toda. Não devia ter feito isso, minha Mãe, a pobre moça ali de pé, deve estar morta de cansaço pobrezinha. Mãe Senhora então perguntou se a moça era uma alta, bonita, a descreveu um pouco e mamãe confirmou. Era essa mesma. Você é uma pessoa especial, Zélia, aquela moça é Mãe Aninha, ela só vem acompanhar o bori de quem ela quer muito bem.
A anarquista Zélia Gattai, materialista, tinha tido o privilégio de ter Eugênia Ana dos Santos, a Mãe Aninha, Obá Biyi, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, morta em 1938, em sua porta, velando por seu bori. Ora ye ye ô. Axé, Obá.
A história não se passou comigo, mas na verdade a vivi intensamente. Mamãe a contava com riqueza de detalhes, cheia de emoção. Bem que minha avó Angelina, vêneta e católica, dizia que a filha tinha nascido com uma estrela! Sei una stella, figlia mia! Mal sabia ela que esta estrela era capaz de guiar orixás e eguns.
Guardo em mim a imagem que não vi: a filha de santo, alta e suave, Mãe Aninha velando por minha mãe em noite de bori.
Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

