Português torna-se língua estratégica

Terceiro idioma mais usado no ChatGPT, o português ganha relevância económica, cultural e política no novo ecossistema mundial da inteligência artificial.

O português já é a terceira língua mais utilizada no ChatGPT, atrás apenas do inglês e do espanhol. O dado integra o relatório OpenAI Signals, segundo o qual mais da metade dos utilizadores ativos da plataforma já se comunica predominantemente em idiomas diferentes do inglês.

A posição é importante porque revela que o português deixou de ocupar um lugar periférico no universo digital. Com mais de 265 milhões de falantes distribuídos por todos os continentes, é a língua mais falada no Hemisfério Sul e uma das principais línguas internacionais de comunicação.

Mas o terceiro lugar não deve ser visto apenas como motivo de celebração. É, sobretudo, um sinal de mercado e uma convocação estratégica. Quanto mais uma língua é utilizada, maior é a pressão para que empresas tecnológicas aperfeiçoem modelos, interfaces, sistemas de voz, ferramentas educativas e serviços profissionais destinados aos seus falantes.

O desafio agora é garantir que a inteligência artificial compreenda as variantes, os contextos culturais e a diversidade histórica do português falado no Brasil, em Portugal, em África e nas comunidades da diáspora.

A língua não é uniforme. O português do Brasil, de Portugal, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe e de Timor-Leste transporta histórias, vocabulários e formas distintas de compreender o mundo. Uma inteligência artificial verdadeiramente lusófona deverá reconhecer essa diversidade, em vez de reduzir o idioma a uma versão dominante ou artificialmente padronizada.

A estratégia exige cooperação entre governos, universidades, empresas, editoras, meios de comunicação e instituições culturais. A própria CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) já colocou a inteligência artificial e a transformação digital no centro do debate entre os seus Estados-membros, associando inovação, inclusão e sustentabilidade.

Para a Associação Portugal Brasil 200 anos, esta presença crescente confirma que a língua portuguesa deve ser tratada não apenas como património cultural, mas como uma infraestrutura económica e tecnológica. O desafio deixou de ser assegurar a presença do português na internet. Agora é garantir que o idioma participe da definição das tecnologias que organizarão o conhecimento, o trabalho e a cultura no século XXI.

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João Dantas