Para o domingo não ficar sem crônica

Amigos, pedi a meu pai para publicar este texto seu sobre Asunción Flores, em semana que ouvi Índia e mais uma quantidade enorme de guarânias paraguaias, que acalentaram meu coração.

Acervo da autora

Ao mesmo tempo, tive a alegria de ter encontrado meu irmão paraguaio Oscar Llanes, jurista e diplomata, e seu filho, meu sobrinho Oscarcito. Vieram à Bahia e pudemos nos abraçar e trocar juras de amor fraternal. Pena que desta vez Mazhra, sua mulher, ela irmã também, não veio.

Quando mamãe ficava muito triste, colocava na vitrola um disco de harpa paraguaia. Já sabíamos que não se devia mexer com ela. Eu muitas vezes deitava no seu regaço, quietinha, e ela me fazia cafuné. Quando fico triste, logo vem na minha cabeça Sublime añoranza, trago en alma mia... Não estou triste, mas um resto da virose Baiana System (e eu nem fui ao carnaval!!!) ficou e me amoleceu de tal maneira, que beira a tristeza. O sistema interno entendeu como harpa paraguaia!

A vontade é somente de voltar para a cama, assistir ao programa rural, ver o paredão do BBB — Puxei a minha mãe, assisto BBB! – e tomar um café forte para ver se eu pego no tranco.

Sentei aqui para resgatar alguma coisa de há muito tempo, Moustaki veio comigo para auxiliar no texto, encontrei logo este pequeno texto de Navegação de Cabotagem – ele meteu logo a pata e acrescentou pequena indicação em polonês... – e acabei escrevendo mais que podia. Saio agora correndo para postar no Face, fazer o café e me deitar.

Bom domingo a todos.

(Viena, 1956 — o paraguaio)

Faminto, fome de comida e de mulher, assim encontro o compositor José Asunción Flores, meu camarada, personalidade de relevo no pecê paraguaio, meu amigo de velha data, vem-me consignado pelos companheiros argentinos, traz-me carta de Rodolfo Ghioldi. Passa por Viena a caminho de Moscou, os soviéticos demonstram interesse por suas composições, a celebridade do autor de Índia e sua posição política abrem-lhe as portas da União Soviética.

Asunción recebera as passagens enviadas pelos russos — Buenos Aires, Londres, Viena, Moscou e vice-versa —, é tudo quanto tem para a viagem intercontinental. Pobre de pobreza guarani, total, os pesos conseguidos com Élvio Romero, compatriota e correligionário de partido e de penúria, ele os gastou no aeroporto de Buenos Aires em sanduíches e frutas: gordo e glutão, eterno esfomeado. Não importa, não terá problemas de nenhuma espécie, pois é convidado da União de Músicos Soviéticos, está por conta da URSS, a URSS é poderosa e rica, nada lhe faltará a partir do momento em que ponha o pé no avião, sua confiança nos poderes do socialismo é absoluta.

Não decorreu com tanta facilidade quanto pensara. As confusões começaram no aeroporto de Londres, onde desembarcou por volta do meio-dia, após travessia longa e cansativa — naquele tempo de aviões a hélices, o vôo Buenos Aires–Londres devia durar boas trinta horas, talvez mais. O amigo Élvio, viajante experiente, havia-lhe explicado: desembarcas, te levam para a sala de trânsito, o vôo para a Áustria sai uma hora depois, ficas atento, quando ouvires chamar os passageiros para Viena, embarcas, em Viena terá gente te esperando, tudo em ordem, não pode haver complicação.

Houve. Asunción não falava outra língua além do guarani e do espanhol: desembarcou, levaram-no à sala de trânsito onde se sentou à espera que anunciassem o embarque para Viena, devia suceder daí a uma hora, não sucedeu. Quer dizer, sucedeu o vôo para Wien, como iria o compositor adivinhar que Wien era Viena? Sobraçando a pasta repleta de composições, ouvido atento, como recomendara Élvio, não ouviu jamais a palavra mágica, Viena, pronunciada ao microfone. Chegara à sala de trânsito pouco depois do meio-dia, às seis da tarde, apertado para fazer pipi, morto de fome, sem saber a quem se dirigir, Asunción, de hábito cidadão calmo, afobou-se.

Élvio lhe recomendara não abandonar a sala de trânsito, mas Asunción não teve alternativa, abriu uma porta, enxergou do outro lado balcão com letreiro: INFORMATION, dirigiu-se para a moça que atendia, começou a explicar a situação, a lady ao balcão não falava espanhol, Flores ia tentar a língua guarani, estava quase mijando nas calças quando, ao escutar os gritos: soy el compositor Asunción Flores, autor de Índia, um senhor elegantérrimo se aproximou e lhe perguntou o porquê de tamanha agitação. Tratava-se do Embaixador da Argentina em Londres, acabava de chegar de Manchester, ouviu a história de Asunción, começou por indicar-lhe o toalete, esperou que voltasse.

Admirador do músico paraguaio — quem não o era na América Latina? — tratou de resolver-lhe os problemas, vários: visto de entrada na Inglaterra válido por vinte e quatro horas, revalidação da passagem, reserva de lugar no primeiro vôo do dia seguinte para Viena. Levou-o a um hotel próximo do aeroporto, pagou-lhe quarto e jantar, pela manhã mandaria o chofer ajudá-lo no embarque. Tudo em ordem, para finalizar pediu o autógrafo do compositor: mi mujer canta en el baño sus guaranias.

Foi assim que, sobraçando a pasta repleta de partituras, da qual jamais se separava, Asunción Flores chegou a Viena com atraso de um dia. Ninguém a esperá-lo, sua salvação foi a carta de Ghioldi para mim, no envelope o endereço da sede do movimento da paz. Lá conseguiu chegar, me encontrou, paguei o táxi.

Asunción morria de fome, começava a morrer de fome cinco minutos após ter almoçado, levei-o a um restaurante, estava conosco a camarada que o Conselho Mundial da Paz designada para me servir de intérprete, austríaca gorducha e sardenta, baixota, Asunción dividia os olhares de gula entre ela e o goulash, faminto de comida e de mulher, assim se declarara ao abraçar-me, exigindo que eu lhe resolvesse as aflições — era dos que acreditavam que eu poderia solucionar qualquer problema. Fez-me uma revelação: cidadão paraguaio, disse-me, após quatro dias sem mulher já não leva em conta idade, raça e sexo, ele completara cinco dias.

A sardenta, vendo-o gesticular, ansioso, quis saber o que se passava, porque estava tão agoniado o camarada Flores — de quem eu já lhe dera as coordenadas, informando-a sobre as guarânias e a popularidade. Expliquei-lhe ser ele paraguaio e que um paraguaio após quatro dias sem mulher etecetera e tal. Perguntei-lhe se ela não se dispunha a resolver o problema do camarada, ali estava excelente ocasião para pôr em prática o internacionalismo proletário. Ouviu-me com atenção, depois mediu Asunción de alto a baixo, gordo e calvo, a cabeça um queijo do reino, quis saber:

— Ele é mesmo muito célebre?

— Très célèbre! En Buenos Aires les femmes se battent pour coucher avec lui…

Novo exame do físico do paraguaio, o resultado pareceu-me pessimista:

— Célebre somente na América Latina, não é?

Vi a situação periclitante, Asunción em maus lençóis, recorri aos princípios:

— Não esqueças que as músicas dele vão ser tocadas em Moscou, será a glória universal. — Senti que a abalara, fui decisivo: — Tarefa de partido, minha bela.

Argumento é argumento, a sardenta sorriu para o careca. Paguei a conta, me retirei discreto, deixei-os tête-à-tête, afinal Assunción me acreditava capaz de resolver qualquer problema, não podia abandoná-lo no alvéo.

Navegação de Cabotagem

crônicas de domingo

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Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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