O direito de acontecer
Nunca se falou tanto e, ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil dizer alguma coisa que seja realmente nossa.
Acervo da autora
A arte sempre me interessou porque abre espaços sem precisar entregar respostas prontas. Uma obra pode incomodar e, ao mesmo tempo, acolher.
Duas pessoas podem estar diante da mesma manifestação artistica e sair dali levando experiências completamente diferentes. E está tudo bem.
No meu trabalho, a matéria já chega marcada. Eu a recolho, desloco, rearranjo e coloco em outro contexto. Interessa-me justamente a história que vem com ela: o uso, o desgaste, a mancha, aquilo que permaneceu.
Tenho pensado que precisamos fazer assim também com as nossas ideias.
Estamos vivendo um paradoxo. Nunca se falou tanto e, ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil dizer alguma coisa que seja realmente nossa. Há uma pressa para responder, definir, concordar ou discordar. Como se todo pensamento precisasse chegar pronto. Como se mudar de ideia fosse fraqueza. Como se ouvir o outro significasse concordar com ele.
A arte me ensinou outra coisa.
Ela me ensinou a permanecer um pouco mais diante daquilo que não compreendo. A desconfiar das respostas rápidas. A perceber que uma coisa pode carregar contradições e continuar inteira.
Como artista, como mulher e como alguém que trabalha diariamente com a matéria, me interessa cada vez mais esse espaço entre uma incerteza e outra.
O lugar onde ainda podemos olhar, escutar, discordar, mudar de posição e continuar conversando.
Pensar também é uma forma de rearranjar aquilo que recebemos. Sem apagar todas as marcas. Sem precisar ter certeza de tudo.
Dar ao pensamento, assim como à arte, o direito de acontecer.

