PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS
Coluna de Sergio Botelho, de 03 a 09 de janeiro de 2026
Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello
03 jan. 2026
Encerrada ditadura do Estado Novo, com a deposição de Getúlio Vargas, em outubro de 1945, ainda naquele mesmo ano, no domingo, 2 de dezembro, houve eleição direta para Presidente da República, Senado e Câmara dos Deputados, em todo o país.
Enquanto Eurico Gaspar Dutra era eleito e empossado na Presidência da República, os senadores e deputados federais vitoriosos no pleito recompuseram o Congresso Nacional e passaram a exercer o papel de Constituintes, com o objetivo de restaurar a democracia brasileira.
A Assembleia Constituinte, então, determinou a realização de eleições em 19 de janeiro de 1947, para governadores e deputados estaduais, incluindo, também, vagas ainda remanescentes no Senado e na Câmara.
Na Paraíba, foram eleitos para governador Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello, para vice José Targino da Costa (que terminou assumindo a titularidade com a renúncia de Trigueiro para concorrer ao pleito de 1950) e para o Senado José Américo de Almeida.
Oswaldo Trigueiro já havia assumido a Prefeitura de João Pessoa no período imediatamente posterior à Revolução de 1930, cumprindo mandato entre 1936 e 1937, nomeado pelo interventor Argemiro de Figueiredo.
Como prefeito, ganhou destaque no planejamento urbano, com olhares mais voltados para o Parque Solon de Lucena. No estado, destacou-se por suas preocupações com estradas e habitação popular, enquanto, na capital, foi pavimentou a Avenida Cruz das Armas.
Nascido em 2 de fevereiro de 1905, em Alagoa Grande, Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello concluiu Direito na Faculdade de Direito do Recife, aprofundando-se em Ciência Política na Universidade de Michigan, no EUA. Residia no Rio, quando recebeu o convite para assumir a prefeitura pessoense.
Terminado o período governamental na Paraíba, elegeu-se deputado federal nas eleições de 1950. Com a implantação do regime de 1964, foi nomeado, sequencialmente, como Procurador Geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal, assumindo sua presidência entre 1969 e 1971.
Entre a função parlamentar e a função de Procurador, foi embaixador do Brasil na Indonésia e integrou o Tribunal Superior Eleitoral. Faleceu em 30 de julho de 1989, no Rio de Janeiro.
Mário de Andrade na Paraiba
04 jan. 2026
Com o título O Turista Aprendiz, Mário de Andrade, autor de Macunaíma, e figura central da famosa Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, publicou, em forma de diário, depois reunido em livro (reeditado pelo Iphan, em 2015), experiências colhidas em duas viagens pelo Brasil. A primeira, à Amazônia, entre maio e agosto de 1927, a segunda, ao Nordeste, entre novembro de 1928 e fevereiro de 1929. No roteiro nordestino, a Paraíba.
O objetivo da viagem que empreendeu ao Nordeste foi sobretudo etnográfico, o que só pode ser devidamente empreendido por meio da convivência direta com o espaço e com as gentes e com as culturas que se deseja entender. Justamente o que ele fez.
Há relatos de Mário de Andrade, sobre sua estada na Paraíba, algumas hilárias, como é o caso de uma “aranha enorme” que lhe atormentou a estadia no quarto de um hotel pessoense, apesar da garantia do dono do estabelecimento de que ela não fazia mal algum.
O hotel era o famoso Luso-Brasileiro, no Varadouro (na Praça Álvaro Machado) de muito prestígio na cidade. Ele conta que chegou para dormir após ser recepcionado pelos amigos José Américo de Almeida, Ademar Vidal e Silvino Olavo, da intelectualidade paraibana.
“Ao chegar no quarto pra que meus olhos se lembraram de olhar pra cima? Bem no canto alto da parede, uma aranha enorme, mas enorme”, escreveu. Terminou encontrando guarida na casa de Ademar Vidal, na Rua das Trincheiras.
Ele usou o susto para se mostrar como viajante vulnerável, nervoso, meio cômico (o que era uma marca de Mário de Andrade), no primeiro instante em que a Paraíba entra nas anotações dele. E o reproduzo, além de me divertir com a história, também para registrar nomes e espaços da cidade na época.
Nos próximos capítulos de Parahyba e suas Histórias, registros culturais de Mário de Andrade, a partir de sua viagem de pesquisa à Paraíba.
Mário de Andrade e a virtuose do ganzá
05 jan. 2026
Na noite de 27 de janeiro de 1929, o celebrado paulista Mário de Andrade, autor de Macunaíma, hospedou-se no Hotel Luso-Brasileiro, levado por José Américo, Ademar Vidal e Silvino Olavo, na então cidade da Parahyba. Após o hilário susto com a aranha no quarto, que mencionei no post deste domingo, 4, ele foi a Tambaú, iniciando suas pesquisas etnográficas de campo.
Ele não dá detalhes sobre o meio de deslocamento àquele então longínquo espaço ainda não devidamente urbanizado de João Pessoa. Mas já havia a Epitácio Pessoa, embora em leito de terra (com tráfego mais facilitado por não ser um tempo chuvoso). Enfim, ele contava com o apoio do então presidente do estado, João Pessoa.
É de se anotar ainda que, com atuação destacada na orla marítima, o santa-luziense João Maurício de Medeiros já havia cumprido seu período como prefeito da capital (1926-1928), com melhorias tanto no acesso a Tambaú quanto nos deslocamentos locais.
Na orla, se deparou com uma roda de coco, parte de seus objetos de estudo. Abro espaço para sua descrição: “...topei com os sons dum coco. O que é, o que não é: era uma crilada {algazarra} gozosa dançando e cantando na praia. Gente predestinada pra dançar e cantar, isso não tem dúvida”.
E continuava: “Sem método, sem os ritos coreográficos {se referindo ao folclore estilizado} do coco, o pessoalzinho dançava dos cinco anos aos treze, no mais! Um velhote movia o torneio batendo no bumbo e tirando a solfa. Mas o ganzá era batido por um piazote que não teria seis anos, coisa admirável. Que precocidade rítmica, puxa!”
Mais admirado ainda ele ficou quando o menino, cansado, passou o ganzá a uma menina. “Essa teria oito anos certos mas era uma virtuose no ganzá. Palavra que inda não vi, mesmo nas nossas habilíssimas orquestrinhas maxixeiras do Rio, quem excedesse a paraibaninha na firmeza, flexibilidade e variedade de mover o ganzá. Custei sair dali”.
Essa era a João Pessoa de outras épocas, cheia de ancestralidades que hoje não existem mais, assim, de forma tão espontânea e virtuosa.
A assombração de Mário de Andrade diante do conjunto franciscano de Parahyba
06 jan. 2026
No dia 30 de janeiro de 1929 Mário de Andrade, em sua viagem de inspeção etnográfica ao Nordeste, chegou ao adro da Igreja de Santo Antônio, no conjunto franciscano da então cidade da Parahyba, atual João Pessoa.
“Chego no pátio do convento de São Francisco e paro assombrado. Eu já conhecia a igreja de fotografia porém fotografia ruim, péssima como todas as que tiram os fotógrafos do Brasil”, reclamou o paulistano diante do que via.
E prosseguiu: “Do Nordeste à Bahia não existe exterior de igreja mais bonito nem mais original que este. E mesmo creio que é a igreja mais graciosa do Brasil – uma gostosura que nem mesmo as sublimes mineirices do Aleijadinho vencem em graciosidade.”
Mário de Andrade, experiente demais para não saber o que estava dizendo, se mostrava apalermado diante do que via à sua frente, na capital paraibana. “Estou assombrado”, repetiu no texto incluído na obra O Turista Aprendiz.
Refeito, ele ajusta a escrita: “Não tem dúvida que as obras do Aleijadinho são de muito maior importância estética, histórica, nacional e mesmo as duas São Francisco de Ouro Preto e São João del Rei serão mais belas, porém esta de Paraíba é graça pura, é moça bonita, é periquito, é uma bonina. Sorri”.
Imagino o interesse que a descrição feita por aquela figura, uma das mais representativas da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, causou aos leitores do jornal paulista Diário Nacional, onde ele escrevia.
E arrematou: “Na frente de tudo o cruzeiro é um monolito formidável. Estou assombrado (tornou a repetir). Paraíba possui um dos monumentos arquitetônicos mais perfeitos do Brasil. Eu não sabia... Poucos sabem..”
Pois bem, esse é o nosso conjunto franciscano, assim, tão bem qualificado por Mário de Andrade, há quase 100 anos. E como nada, naturalmente, foi construído, nem descoberto, no mesmo estilo, de lá até aqui, tudo que ele disse continua de pé.
O púlpito da Igreja de Santo Antônio, no Conjunto Franciscano
07 jan. 2026
Primeiro, uma explicação acerca do que me foi questionado após a publicação do texto desta terça-feira, 06. A igreja e o convento do conjunto franciscano celebram Santo Antônio, não São Francisco.
Os dois santos são contemporâneos: ambos viveram entre os séculos XII e XIII, sendo Santo Antônio (nascido Fernando de Bulhões) natural de Lisboa, Portugal, no ano de 1195, e São Francisco, de Assis, Itália, em 1182.
Santo Antônio, após ingressar na ordem franciscana, tornou-se o principal discípulo de São Francisco e, nessa condição, a segunda figura mais importante dos franciscanos, além de grande amigo do fundador da ordem.
É por isso que a igreja e o convento do conjunto franciscano, na atual João Pessoa, são consagrados a Santo Antônio, o que certamente causa uma certa confusão de entendimento.
Mas o assunto de hoje é o riquíssimo púlpito existente no interior da referida igreja, o da foto. Em sua visita de 1929 à Paraíba, Mário de Andrade considerou a obra uma “joia de proporção e desenho”.
O púlpito (elemento de destaque nas igrejas antigas antes dos sistemas de som) era o lugar reservado a leituras bíblicas e para o sermão, onde o pregador conseguia ser visto e ouvido por todos os que estivessem no templo.
O da igreja do conjunto franciscano, em João Pessoa, aparece como um nicho avançado na parede da nave. É feito com madeira ricamente entalhada e decoração barroca.
Acima dele, chama a atenção o dossel dourado, também entalhado. De acordo com as pesquisas que fiz, ele funciona não apenas como destaque visual, mas ainda como recurso de acústica, projetando a voz do pregador. Por isso, também é chamado de aba-voz.
Enfim, o púlpito exprime função simbólica na liturgia católica, já que marca o lugar da Palavra, valorizando o sermão e o ensino religioso.
Em linhas muito gerais, é isso.
Sobre a presença franciscana na Paraíba
08 jan. 2026
Nos últimos dias, me ocupei em transcrever observações feitas pelo pesquisador paulistano de múltiplas vertentes culturais, Mário de Andrade, por ocasião da visita que realizou à Paraíba, em 1929. Os textos se fixam mais especificamente em suas elegias à beleza original do conjunto franciscano.
Afinal de contas, sempre importa saber o que os de fora pensam ou pensavam sobre nossos próprios orgulhos. Ainda mais, uma figura da estatura de Mário de Andrade, até hoje, uma das maiores expressões do mundo intelectual brasileiro.
Agora, para quem deseja conhecer mais detalhes sobre a história da chegada dos seguidores de São Francisco de Assis à cidade, e de sua obra, é indispensável ler “A Presença dos Franciscanos na Paraíba Através do Convento de Santo Antônio”, da historiadora Glauce Maria Navarro Burity, secretária-geral do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IFGP), do qual passou a fazer parte em 1988.
A obra, originalmente uma dissertação de Mestrado em História, foi apresentada, em 1984, na Universidade Federal de Pernambuco. O trabalho acadêmico foi orientado pelo renomado professor e historiador Armando Souto Maior (1926-2006).
A dissertação, sempre citada por pesquisadores sobre a história franciscana na Paraíba e no Brasil, virou livro, cuja primeira edição aconteceu em 1988, por meio da editora Bloch, Rio de Janeiro. Em 2008, nova edição, agora pela Gráfica JB, em João Pessoa.
A importância da obra tem relação direta com a dos franciscanos na Paraíba, aqui chegados ainda no final da década de 1580, a primeira de existência da atual cidade de João Pessoa, na época chamada Filipéia de Nossa Senhora das Neves.
A construção da igreja e do convento de Santo Antônio, realizada pelos franciscanos, resultou em um dos primeiros prédios de maior porte da cidade. A partir de 1634, o conjunto foi transformado pelos holandeses em quartel-general das forças invasoras, ali permanecendo até que foram expulsos, em 1654.
Tudo isso consta do livro da professora Glauce Burity. Daí, sua reconhecida relevância.
Um Varadouro animadíssimo
09 jan. 2026
Igreja da Conceição, no Varadouro
A edição de 9 de janeiro de 1934 (uma terça-feira) do jornal A União, registra uma Festa de Reis na rua Visconde de Itaparica. O texto informa que às 20 horas do dia 5 (portanto, antecipada), moradores se reuniram para os festejos, com a presença do próprio governador Gratuliano de Brito.
A referida rua compõe o bairro do Varadouro, na região contígua ao setor urbano que a gente conhece como Cordão Encarnado. Ela fica entre as ruas da República e Índio Piragibe, paralela à São Miguel, terminando na altura da Praça 2 de Novembro, a do Cemitério Senhor da Boa Sentença.
Convém saber que aquela área de João Pessoa já se constituiu num setor de grande importância urbana, mais fortemente até a década de 1950. Havia um distrito industrial pujante integrado pelas Fábrica de Guaraná Sanhauá, Prensa de Algodão Abílio Dantas e Indústrias Matarazzo, bem no início da República.
No quesito das festividades, não apenas a Festa de Reis atraia o povo pessoense àquele setor da cidade. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na São Miguel, mantinha uma animada e sedutora festa, em que se misturava o profano com o sagrado, entre o final de novembro e início de dezembro.
Na mesma São Miguel, havia o tradicional clube Esquadrilha V, que homenageava a Foça Aérea e mantinha atividades esportivas e festivas de grande apelo popular na João Pessoa de então. Os desfiles de Carnaval do Esquadrilha V eram aguardados com frenesi pela população pessoense.
Ali perto, a Praça do Trabalho (também conhecida como Praça da Pedra), inaugurada na década de 1930, costumava servir a eventos cívicos diversos, especialmente aos promovidos por organismos, que eram muitos, sob a direção dos trabalhadores.
Ainda no campo do divertimento, havia três salas de cinema na região: a do Filipéia, na esquina da Rua da República com a general Osório; a do Astória, na parte mais próxima da São Miguel; e a do São Pedro, na própria São Miguel, bem próxima do Esquadrilha V.
Pense num Varadouro animado que era aquele!
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS
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Sobre o autor
Sergio Botelho é jornalista e escritor, membro da União Brasileira de Escritores. Iniciou sua carreira no final dos anos 1970, na redação do jornal O Norte. Atuou no jornalismo diário em diversos meios de comunicação paraibanos, seja como editor, colunista político ou âncora. Desempenhou atividades enquanto assessor de imprensa em instituições renomadas como a Universidade Federal da Paraíba e o Ministério Público de Rondônia. Publicou os livros “Memórias da Cidade de João Pessoa” (2024), e “João Pessoa, uma viagem sentimental” (2025).

