Ela
Vi ela. A mulher loura posando pro nada, nada não, pois nada não existe. Posando pra si.
Ela estava sentada na rua como se não houvesse barulho, pombas, pessoas, nada. Eu? Andava por aquele jardim procurando algo para surpreender aquela rotina. Por algum motivo, à qual não consigo escrever, pois me faltam palavras (queria saber todas para que pudesse um dia entender tudo e então não precisasse mais chorar) sentei e a observei.
Passaram-se algumas horas e algumas outras mulheres se juntaram a ela, levantaram, foram ao meio da praça e dançaram sem música, ou melhor, a música era a rua, os barulhos, as pombas, as pessoas, nada. Voltei ao meu quarto- que não me pertence- sentei na frente da máquina e pedi por um momento meu, mas como sempre a paz, aquela que como muitas coisas não consigo escrever, é indescritível. Indescritível, pois nunca esteve, não sei se tive, mas as vezes sinto ressoar em mim. Então decidi voltar. Peguei a máquina e voltei. Ali, a mulher estava sozinha de novo. Fui falar com ela e me olhou direto em meus olhos como se fossemos dois pássaros que se encontram no ar vendo o horizonte absoluto.
Me disse que estava ali nas últimas semanas, naquele lugar que não pertence a ninguém e que dizia se importar, mas não me conhecia. Me disse que decidiu morrer. Mesmo morrendo ali também não pude entender porque lá. Por que morrer no branco? Apagar-se no lugar em que já se prepara, já sabe que o caixão tem seu nome (outra coisa a qual me estranha: o morto é enfiado embaixo da terra, soterrado na raiz onde surge a vida, nas raízes do que comemos. Em contato com todo tipo de vida mesmo morto e mesmo morto é vida). Não escrevi nada em minha lápide, nem meu nome. Não sabia do que ser lembrado, não sei nem sequer quero ser lembrado. Para aqueles que me conhecem, só queria as memórias que depois se perdem e se tornam nada.
Passei a encontrá-la quase todos os dias e quando a conversa era como móveis que não se movem, apenas andávamos por aqueles corredores que pareciam o caminho pro céu. Os enfermeiros acenavam, mas só nos importávamos com aqueles instantes de sua vida. Comecei a fotografá-la também, já não queria mais viver. Essa é minha lembrança; ela não olhava pra câmera como me olhava. Seus olhos na foto são sempre discretos; acho que não gostava do efeito do foco, da lente que te olha ameaçando e estampa no olho do outro você. A câmera, quase narciso que morreu na própria imagem.
Não sei ainda porque quis morrer. Mas quando morreu, morreu em paz. Talvez essa fosse a descrição de paz. A enfermeira chegou no quarto, falou como seria o procedimento num tom apropriado para o lugar; no tom de como quem já soubesse. A mulher, antes de enfiarem aquela agulha com baba da morte, que é uma fenda no tempo, alcançou o maior controle, alcançou suas veias, seu sangue e suas células. Apagou.
Me deixou um livro capa dura e coloquei suas fotos.

