Do cordel à arte contemporânea: entre oerudito e o popular
Há imagens que chegam antes das palavras. Às vezes aparecem em uma capa de cordel, impressas em preto e branco, com linhas fortes e personagens que parecem saltar do papel. Outras vezes chegam pela voz de quem lê, canta ou conta uma história.
Fonte: Acervo da autora - gravura "bonecas coloridas" AnnaGuerra
A imagem e a palavra atravessam a feira, a casa, a rua e a memória.
Penso no cordel como uma forma de guardar e compartilhar o mundo.
Ele narra acontecimentos, inventa personagens, comenta injustiças, produz humor e transforma experiências cotidianas em conhecimento. Não pertence apenas ao papel: vive também na oralidade, na escuta e na lembrança de quem leva a história adiante.
O cordel circula. E, ao circular, transforma-se.
Nasci no Recife e vivo em São Paulo há muitos anos. Entre esses lugares, aprendi que uma origem não é uma moldura imóvel. Ela se desloca conosco e continua presente nas cores, nas festas, nos modos de falar e nas imagens que reconhecemos sem saber exatamente de onde vêm.
É assim que me aproximo do cordel: não como quem procura uma imagem pronta para reproduzir, mas como quem reconhece nele uma maneira de construir pensamento a partir de fragmentos, repetições, deslocamentos e encontros.
No meu ateliê, tecido, papel, tinta, linha, recorte e resíduo convivem sem fronteiras rígidas.
Cada material carrega uma possibilidade de linguagem. O tecido pode ser superfície, corpo, abrigo ou memória.
A linha pode unir, atravessar, prender, desenhar e revelar uma fratura.
Quando penso na xilogravura popular, reconheço a força da marca deixada pela mão.
A imagem nasce do corte, da pressão e da repetição.
Algo semelhante acontece quando costuro, bordo, recorto ou reúno retalhos.
O trabalho não está somente na forma final, mas também no tempo da construção e nas pequenas decisões que se acumulam até formar uma composição.
Um retalho é um fragmento, mas não é vazio. Pode ter pertencido a uma roupa, a uma cortina, a uma toalha, a uma festa ou a uma casa. Pode trazer uma cor, uma estampa, uma dobra ou um desgaste que o tempo deixou visível. Quando esses pedaços se encontram, não desaparecem uns nos outros.
As emendas permanecem. As diferenças também.
É nesse ponto que penso na separação entre o erudito e o popular.
Durante muito tempo, algumas linguagens foram reconhecidas como arte, enquanto outras foram empurradas para lugares considerados menores.
A pintura sobre tela podia entrar no museu como obra; o bordado, a renda, a chita, a cerâmica, a colcha, a xilogravura e os objetos produzidos em contextos populares eram frequentemente reduzidos a artesanato, decoração ou folclore.
Mas quem estabeleceu essas divisões? Quem decidiu quais materiais carregam pensamento? Quem determinou que o conhecimento aprendido em casa, na feira ou na oficina teria menos valor do que aquele legitimado por uma escola ou instituição?
Não se trata de negar as diferenças entre os campos da produção artística. Trata-se de não aceitar que a diferença seja transformada automaticamente em hierarquia.
Há pensamento na escolha de uma cor, invenção na organização de uma estampa e domínio técnico na construção de um objeto. Há memória em um ponto de costura e crítica social em uma narrativa de cordel.
O fato de um saber ser transmitido pela oralidade, pela observação ou pela prática não o torna menos complexo.
Também é preciso lembrar que grande parte desses conhecimentos foi sustentada por mulheres. Costurar, bordar, remendar, tecer e cuidar foram tratados muitas vezes como tarefas naturais e invisíveis. O trabalho aparecia, mas a autora desaparecia.
Não me interessa romantizar essa história. Muitas mulheres produziram em condições difíceis, sem remuneração justa e sem reconhecimento. Por isso, quando levo o tecido para o campo da arte, não quero apagar sua dimensão doméstica. Quero que permaneçam visíveis suas marcas de trabalho, resistência, repetição e inteligência.
O reconhecimento recente do meu trabalho pelo MARP foi importante porque ampliou a circulação de uma pesquisa construída ao longo de muitos anos. Receber esse
reconhecimento não significa chegar a um ponto final.
Ao contrário, faz surgir novas perguntas sobre o lugar dos materiais, das memórias e dos saberes que levo comigo.
Uma obra pode entrar em uma instituição sem abandonar sua origem. O tecido não precisa deixar de ser tecido. O retalho não precisa esconder sua emenda. A irregularidade não precisa ser corrigida para se tornar digna de atenção.
O contemporâneo não está apenas na novidade. Também pode existir quando olhamos novamente para algo conhecido e percebemos que ainda não havíamos escutado tudo o que ele tinha a dizer.
A cultura popular não é um repertório congelado: ela inventa, transforma e responde ao presente.
Essa reflexão se relaciona também com o diálogo entre Portugal, Brasil e os demais países de língua portuguesa. Uma língua não é feita somente de gramática e dicionário. Ela vive nos sotaques, nas histórias, nos cantos, nas imagens, nas festas e nos gestos transmitidos entre gerações.
O intercâmbio cultural não deveria procurar uma identidade única. Ele precisa reconhecer diferenças, apagamentos, heranças coloniais e reinvenções. Há muitas formas de habitar a língua portuguesa e de devolver a ela outras vozes.
Uma obra feita de retalhos pode ser uma imagem para esse diálogo.
Nenhum pedaço precisa fingir que nasceu junto dos demais. Cada fragmento pode conservar sua textura, sua cor e sua origem. A composição não elimina as diferenças; cria uma relação entre elas.
Entre o erudito e o popular, interessa-me esse espaço de passagem, conflito e transformação.
É nele que o cordel encontra a arte contemporânea, que o papel encontra o tecido, que a memória pessoal encontra a história coletiva e que um saber transmitido
pelas mãos pode entrar em conversa com uma instituição sem perder sua força.
Continuo acreditando que criar é reunir sem uniformizar.
É aproximar partes distintas sem apagar suas marcas.
O cordel continua circulando.
Os retalhos continuam esperando novas combinações.
E a arte, quando aceita escutar essas matérias, pode deixar de repetir antigas hierarquias para construir outras formas de encontro.

