Álbum de figurinhas
A paixão por colecionar figurinhas começou no ano de 1955. Um dia papai chegou em casa do Paratodos, jornal que dirigia, trazendo o álbum recém-lançado sobre os cachorrinhos do desenho animado também recém-lançado: A Dama e o Vagabundo.
Acervo da autora
Foi dizendo:
-- É um álbum de figurinhas, vocês vão adorar. Mas é dos três! Trouxe figurinhas para os três se divertirem, abrindo, colando e lembrando da história que viram no cinema.
E quem eram os três? Janaína e João Jorge, prima e irmão, e eu. A dupla rainha e rei tinha 8 anos cada, eu, a escrava, tinha 4. Essa era a única brincadeira que me deixavam participar, a pirralha desajeitada, e eu brincava achando ótimo ser como escrava naquele reinado. Vendo isso, papai trazia brincadeira nova que unificava as classes sociais, acabava com hierarquias.
Abrimos na sua frente os pacotinhos, e eu logo rasguei metade das minhas figurinhas cortando errado. A dupla dinâmica olhou papai e disse em coro:
-- As dela vão ficar todas perdidas...
-- Tá bom. Palezinha, você deixa Jana e Juca abrirem, você cola algumas.
A emenda saiu pior do que o soneto, ao colar – com grude de farinha, feita no fogão por Roberta – eu deixava sobrar arriscando colar as páginas ao fechar o álbum. Fui expulsa da brincadeira. Chorei muito, sobretudo quando papai passou por perto.
-- Vamos resolver assim, filhinha, eu faço um álbum com você e eles fazem o deles.
Foi uma divisão injusta, devo dizer. Papai, colecionador nato, trazia mais figurinhas para nós, que ele abria e colava, mas sempre comigo junto dando palpites. Trocávamos no jornaleiro (ele trocava) e ainda dávamos ao casal real muitas, de forma a diminuir a injustiça. Acabamos rapidinho, foi o único álbum que completei na vida, sem comprar as que faltavam.
Mas bem, chegamos a mais uma Copa do Mundo, e com ela mais um álbum de figurinhas. Tenho lembrança de fazer o da Copa de 70, com grande ajuda de meu parceiro seu Jorge papai. Se completamos? Não lembro. Mas a partir de 2010 nenhum me escapou, fazia dupla com Felipe, meu neto, que é doido por futebol. Chegou 2026 e Lipe está estudando no Rio, longe. Falamos sobre o álbum, ele me disse que fará com os colegas da arquitetura, em grupo sai mais barato. Fiquei um tanto solta no ar, quando Cecília, minha filha, mãe do Lipe, me propôs que fizéssemos juntas. Assim estamos fazendo!
É preciso falar dos prós e dos contra deste divertimento. Primeiro dos contra: albinho mal feito miserável, arte gráfica confusa, uns tipos que ninguém lê, distribuição da numeração por país, não tem mais aquela figurinha difícil número tal, pois tem a 18 da Croácia, a 18 do Uzbequistão, da Bélgica, do Qatar..., sem dizer que a 1 não é o goleiro, é o escudo, ficando o jogador número 10 na figurinha 11!!! Além de todos os males – e eu só citei uns poucos – é caro feito a porra. Agora é conseguir trocar muito (no Shopping tem um setor de trocas, que ontem estava lotado de meninos, mães, avós e velhotas avulsas como eu). E o que tem de bom? É um mergulho na Copa antes dela começar, conhecendo os jogadores de toda a parte, comentando e rindo.
-- Ci, me diga se esse jogador do Canadá não tem o olhar de Evaldo Macarrão, que fez o Pirulito no Capitães?
-- Tem mesmo, você viu que na Coreia tem 6 jogadores chamados Li? Li passa pra Li, que chuta longe nos pés de Li...
Fora poder fazer suas próprias figurinhas. Vou fazer a do Lipe, as de Hiago, Hian e Maria, meus netinhos postiços a quem dei álbuns, e também a do Neymar, que foi para a seleção, mas não entrou no álbum! Hahaha. Pensei que seria divertido fazer várias e levar para o troca-troca, chegar dizendo:
-- Alguém quer a do Neymar? Troco por 10 que eu não tenha! Hahaha
Muito divertimento.
É isso. Podia estar falando das barbaridades do Trump tentando se tornar dono do mundo, da família numerada que quer afundar o Brasil, dos que roubam dos aposentados e que, graças a ações certeiras estão presos, mas... Fim de semana não é para amarguras, é para o melhor dos divertimentos e as melhores lembranças.
Lembrar de fazer álbum de figurinha com papai não tem preço. Foi um privilégio.
Bom domingo a todos.
crônicas de domingo
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crônicas de domingo 〰️
Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

