Champi

Sexta-feira morreu meu amigo Ramiro Bernabó.

Acervo da autora

Sossó mandou um wapp avisando, mas estou muito longe para poder ir me despedir dele. Mesmo sabendo que estava doente, a concretude da morte é sempre um choque, maior ainda quando se trata de alguém querido de nossa mesma geração. “No me pregunte por nadie, compadre, se murieron todos”, disse Neruda a papai quando veio pela última vez à Bahia e eles ainda nem tinham 70 anos.

Viemos passar férias na Bahia em 1962. Enquanto meus pais procuravam uma casa para comprar em vistas à nossa mudança definitiva para Salvador, Juca e eu curtíamos as novas amizades com os filhos dos amigos deles que estavam em nossa faixa de idade: Maria e Arthur, filhos de Norminha e Mirabeau, Mariozinho, Kade, Ivan e Otávio, o Pingo, filhos de Lucia e Mário Cravo, Ramiro e Sossó, filhos de Nancy e Carybé. Geralmente os encontros eram na casa do dindo Carybé, em Brotas, ou então no Rio Vermelho, na casa-atelier de Mário.

Tudo era novidade e divertimento. João rimava em idade com Ramiro e Mariozinho, eu era par com Kade, Sossó era a caçulinha, nem por isso menos presente. O fundo da casa de Mário dava para um matagal de onde partíamos em trilhas mal traçadas até o Jardim Zoológico. Uma bela caminhada.

Quando eu penso que este matagal hoje são vias movimentadíssimas, exatamente a Avenida Garibaldi, custo a acreditar. Rapidamente Mariozinho e eu nos encantamos um pelo outro e começamos a namorar: eu com 11, ele com 15. Mamãe, Lucia e Nancy riam muito, namorico de criança, coisa linda. Nosso namorico de criança tinha muito beijo na boca, de língua! Aprendemos juntos e foi tão bom. Champi, que era como chamávamos Ramiro, estava sempre junto, uma espécie de anjo da guarda de nosso namoro.

Juca fingia não ver nada, o papel de irmão era tomar conta. Do Rio Vermelho eles também tomavam o rumo do mar, faziam pesca submarina, Juca olhava junto conosco, as meninas, creio que nunca se aventurou mar abaixo. (Quem sabe, Juca, você escreve uma croniquinha para complementar a minha, todo mundo gosta, deixa a preguiça e as séries chinesas...). Foi a primeira vez que comi pinaúna, ou ouriço como chamam também. Os meninos trouxeram uma porção, eu adorei.

Na casa de Brotas continuava a brincadeira. Lá estavam os vizinhos filhos de Beth King e era muito conversê e risadaria por aquelas ruas sem trânsito, que mais parecia um condomínio.

O namoro com Mariozinho durou pouco, mas rendeu lindíssimas cartas de amor, que eu guardo comigo. É que Mário pai teve uma bolsa para a Alemanha e para lá se foi levando Lucia e a filharada. Quando viemos morar na Bahia, eles ainda estavam por lá. O tempo passou, continuamos todos amigos, cada um para seu lado, buscando seu rumo.

Mariozinho se tornou um fotógrafo espetacular, o Cravo Neto, Champi deixou o curso de arquitetura pelas artes plásticas, seguia o caminho do pai, mas se atrapalhava um pouco. Um dia casou, teve uma filha linda, a Juliana, que em determinado momento de minha vida foi vizinha nossa no Jardim Botânico, no Rio, quando ele já não estava mais casado.

Foi um escultor e design maravilhoso. Na nossa casa do Rio Vermelho, que hoje é um museu, tem uma poltrona sua, que um dia deu de presente para meus pais, e ficou alegre por ver como todos tínhamos adorado. Sempre que estou acompanhando alguém na visita me perguntam o nome do artista que a fez, digo com alegria que foi Ramiro Bernabó, um artista retado!

Champi foi importante na minha vida, muito importante, sem nem mesmo saber disso. É que depois de me divorciar e começar uma nova vida, em que palestras, seminários, entrevistas, enfim, deitar falação se tornou o meu dia-a-dia, um vez ele foi me ouvir falar. Ficou impressionado e veio me dizer, e repetia que eu falava muito bem, que deveria seguir sempre nesse caminho. Ramiro me dando conselhos, podia parecer bobagem, mas calou fundo em mim. Acreditei, pois ele nunca foi de dizer o que não pensava, falava com sinceridade e entusiasmo. Me entusiasmei também.

Ele foi daquelas pessoas que botou minha autoestima lá no alto, acreditando em mim. Penso nisso, lembro de Dorizinho, filho de Caymmi, que em seguida a que eu fui expulsa da academia de balet por estar fora de peso aos 11 anos, veio em casa e disse que eu era linda, merecia “o Prêmio Nobel da beleza”. Mariozinho também achou... Ambos, Champi e Dori marcaram minha vida de uma maneira que eles mesmos nunca souberam.

Querendo fazer um carinho em Sossó, Gabriel, Daniel, Raquel, Juliana, filharada e netaiada, me veio à cabeça mandar a foto do ninho de passarinho que os meninos acharam há um tempo caído perto da casa.

Aqui na fazenda tem dois cachorros, a Bianca Castafiore, uma pastora maremano e o Rakan le Rouge, um border collie (ambos com nomes de personagens do Tintim). Bianca é enorme, branca e peluda, e vive se coçando pelo mato. Explico isso para contar que o ninho, além dos gravetinhos, musguinhos e folhas secas, tem uma camada de pelos da Bianca, uma espécie de cobertura fofinha para o passarinho ao sair do ovo.

Disse na crônica passada que faço poesia tecendo meus crochês. Os passarinhos fizeram poesia tecendo o ninho para seus filhotes, com a ajuda de Bianca que deu pelos macios para forrá-lo. Que esse ninho-poesia leve meu abraço solidário para acarinhá-los.

Saudades, Champi.

Bom domingo a todos.

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Fonte do Tambiá