Castro Alves e a alemã de araque

Crônica de domingo 11 de outubro de 2026

Paloma Jorge Amado

Quando nas praças s’eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva,
O Cristo assombra o algoz...

Ontem fui à Casa do Rio Vermelho para dar uma entrevista a uma jornalista do Corrieri della Sera que está na Bahia. Cheguei cedo, tinha bastante gente circulando pela casa, fui conversar com Maristela que comanda o bom funcionamento do nosso Museu. No mês de novembro comemoramos 12 anos de fundação e no dia 21 vou fazer uma visita guiada contando um pouco do que minha memória guarda de melhor sobre a casa. Venham, é num sábado às 11 da manhã. Antes farei uma oficina para ensinar a transformar uma folha de papel em livros, ela é voltada para as crianças, mas os adultos gostam também. Comercial feito, vamos ao que mais interessa.

Estava esperando a jornalista quando uma senhora loura e seu marido se aproximaram pedindo para tirar fotos, dizendo da alegria de estar ali, da honra que era poder fotografar comigo, eteceteraetal. Me disse que seu pai, como eu, era checo, respondi a ela que eu sou sobretudo baiana (lembrei da máxima de meu avô Ernesto Gattai: quando a gata dá à luz no forno, nascem gatinhos e não bolinhos!). As fotos foram tiradas, a jornalista chegou e eu fui com ela para um canto da casa. Uma hora e meia depois, terminada a entrevista, encontro os guias da casa, jovens muito preparados e gentis -- são maravilhosos --, bem tristes. Quis saber o que tinha acontecido. A tal mulher loura pegou uma das guias para Cristo e descascou todos os piores chavões fascistas contra o Nordeste e a Bahia: que somos burros (!!!), sem educação (!!!), a maioria analfabeta(!!!), incapazes de aprender (!!!!), sem nenhum senso de valores... Que ela era “descendente de alemães, nascida em São Paulo, e como o Sul fora colonizado pelos europeus, resultaram pessoas cultas, inteligentes, que os demais nordestinos descendiam dos escravos, ignorantes ...” Que eu, Paloma, apesar de filha de baiano, tinha tudo para ser assim, mas nasci na República Tcheca, por isso era inteligente... Tive vontade de gritar de raiva, aliás o fiz. Abracei muito a moça que me contava e que ouviu calada, mas chorando, todas essas barbaridades. Queria que a alemã tivesse dito para mim o que disse a ela, eu era capaz de chamar a polícia, racismo e xenofobia explícitas. O que leva alguém a chegar para uma moça negra, gentil, inteligente, agradável e dizer tudo isso? E mais, por que ela foi visitar a casa de meus pais? Tudo o que meu pai escreveu exalta o povo da Bahia, glorioso, valoroso, maravilhoso... Ela vem em casa de comunista deitar falação facista? Oxente, dona, tome tento e pegue seu rumo! E ela ainda será capaz de colocar nossa foto na mídia... Será?

Acordei hoje com isso na cabeça, bem chateada ainda (e creio que por muito tempo terei esse ranço na boca). Ao chegar em casa ontem, vi um pedido da Companhia das Letras de revisão do texto de “O Amor do Soldado”, para um áudio livro. Este livro, de 1944, sobre o amor de Eugênia Câmara e Castro Alves é uma peça de teatro feita por encomenda de Bibi Ferreira. Resolvi meter a cara no trabalho, assim não pensaria na Frau (que mora em João Pessoa, imaginem... Coitados dos paraibanos que convivem com ela...). Comecei a ler e o meu coração se iluminou de amor e esperança. Nessa história, a boa e poética luta de Castro Alves a favor da Libertação dos Escravos, da República e da Democracia, o seu imenso bem-quere pelo povo brasileiro são o pano de fundo perfeito para o amor do menino poeta e da grande estrela do teatro. Não parei a leitura até terminá-la. Depois voltei a algumas partes, sobretudo o poema Ode ao Dois de Julho, que me fez lembrar que temos um hino ao Dois de Julho, o hino da Bahia, que tem uma letra muito própria para o momento atual. Deixei o livro um bocadinho e gravei um vídeo onde até canto:

Nunca mais, nunca mais o despotismo,
regerá, regerá nossas ações,
com tiranos não combinam,
brasileiros, brasileiros corações.

Publiquei. Voltei ao Castro Alves, busquei um trecho que expressa muito bem os nossos sentimentos atuais. Eu os transcrevo abaixo, para mais, é só ler o livro inteiro.

“... e então o comício pôde prosseguir até o fim. A polícia não teve coragem de voltar.

EUGÊNIA
És maravilhoso, querido! És um homem feliz porque sabes lutar ardentemente por aquilo que sonhas, pelo teu ideal. Sabes lutar pela liberdade...

CASTRO ALVES
É necessário lutar, Eugênia. A liberdade não é um bem que se receba como um favor. É preciso conquistá-la e a sua conquista custa muitas vezes a própria vida...

EUGÊNIA
São belos os teus sonhos... A Abolição, a República, a Democracia…

CASTRO ALVES
Mas não basta sonhar, Eugênia. É necessário lutar para que esses sonhos, que são de milhões e milhões pelo mundo afora se transformem em realidade.”

...

(no comício em Recife)

PRIMEIRO ESTUDANTE [Primeiro estudante exaltado]
Daqui a cem anos só a força bruta persistirá. Um ditador qualquer, brutal e insensível, dominará o mundo...

SEGUNDO ESTUDANTE
Isto é um absurdo. Não sabes o que dizes. No futuro os homens de ciência farão tais descobertas que a eles caberá o domínio do mundo...

TERCEIRO ESTUDANTE
Nem os brutos nem os cientistas. Serão os místicos, pregando mais uma vez o perdão e a renúncia...

PRIMEIRO ESTUDANTE
E tu, Castro Alves, que dizes?

SEGUNDO ESTUDANTE
Não escreveste um poema sobre o assunto?

TERCEIRO ESTUDANTE
Chama-se “O vidente”, não é verdade?

CASTRO ALVES
Sim, é verdade. Porém discordo de todos os que aqui falaram sobre o mundo do futuro. Serão a liberdade e o trabalho irmanados. Ouvi: Eu vejo a terra livre...

AUTOR [Autor que se conservou num canto do palco]
Tornou-se o líder inconteste dos estudantes. Mas, logo depois, o era também de todo o povo paulista, pois continuava sua jornada de glórias entre as multidões, levantando-as e ensinando-lhes o caminho para a liberdade. No Dois de Julho, data da independência baiana, declama sua “Ode ao Dois de Julho”, que arrebata a multidão:

Não! Não eram dois povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.

UM ESPECTADOR [Um espectador interrompendo da plateia]
Esses versos parecem escritos para os dias de hoje sobre a luta entre a democracia e o fascismo. O porvir em frente do passado. Este homem adivinhava.”

Vamos ler Castro Alves! Vamos lutar a boa luta! Vamos virar votos e vencer com Lula no dia 25 pelo povo do Brasil.

Bom domingo a todos.

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