Antisemitismo - quem discrimina um, discrimina todos
Você já passou por alguma situação assim? Você vai buscar uma criança na escola. A criança sai da escola devidamente uniformizada e você então resolve ir ao shopping. No meio do caminho você pensa : Eu não trouxe nenhuma roupa para trocar...Será que vai ter algum problema ela ir com o uniforme da escola? Já tendo prometido, você vai ao shopping e faz rapidamente o passeio , o que tem que fazer e volta para sua casa aliviada por nada ter acontecido. Incrível isso, né? Como é que alguém pode ter receio de sair com uma criança com um determinado uniforme na escola...É isso que pessoas da comunidade judaica reportam no Brasil...
Nós sabemos que o aumento do antissemitismo aconteceu de forma a escalar números terríveis nos últimos anos, especialmente desde os atentados de 7 de outubro de 23, a posterior guerra em Gaza e, agora, a guerra no Irã.
Mas você sabe o que é o antissemitismo? O antissemitismo é o preconceito, a aversão, a discriminação ou o ódio direcionado aos judeus individualmente ou no coletivo, baseado em estereótipos, teorias da conspiração e desumanização. Segundo a Aliança Internacional do Holocausto, o antissemitismo, é determinado pela percepção em relação aos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação a eles — ou nós, no caso, pois sou judia.
O antissemitismo tem aumentado incrivelmente no Brasil segundo o relatório da Confederação Nacional das Instituições Judaicas no Brasil - Conib. As denúncias aumentaram 149% em 2025, em comparação a 2024, e ja havia um aumento de números em relação aos períodos anteriores. Quase mil denúncias no ano passado, a maior parte, no ambiente virtual, mas incluindo denúncias de pichações, ataques à sinagogas, intimidação de estudantes judeus e hostilização.
Muito recentemente, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, uma delicatessen chamada Delly Gil foi palco de uma situação de antissemitismo sem nenhum disfarce. Seu proprietário disse para uma das suas clientes judias, quando ela perguntava sobre a matza, que é o pão ázimo que come-se em Pessach, por que naquele ano não estava à venda, ele respondeu que estava cansado dos judeus e não venderia mais o produto. Agora pensa, se alguém dissesse que estava cansada ou cansado dos negros, ou dos deficientes, ou das mulheres. Isso teria uma reação imediata. Por que em relação aos judeus não se faz tal relação? E eu falo aqui como uma mulher judia, uma mulher que nunca escondeu a sua crença.
Pois bem, é exatamente porque a sociedade não consegue abraçar, não consegue ter essa mesma relação de forma natural, que foi necessário que a deputada Tabata Amaral apresentasse um projeto de lei na Câmara dos Deputados que equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de dois a cinco anos. Segundo o projeto, os atos antissemitas são quando os alvos dos ataques, sejam pessoas ou bens, são selecionados porque são judaicos ou associados a judeus, incluindo instituições comunitárias e instalações religiosas, incluindo tambem o Estado de Israel, encarado como coletividade judaica.
Por que isso é relevante? Porque na Segunda Guerra Mundial o preconceito foi direcionado para uma minoria, os judeus, com o genocídio de 6 milhões de pessoas... Mas sabemos que os assassinatos não foram apenas de judeus, porque aquele que discrimina um, discrimina todos...
Por isso que me causa estranheza que todas as pessoas que se levantam contra o racismo, contra a misoginia, contra o capacitismo, contra o machismo, não se levantem contra o antissemitismo. A raiz é a mesma, é o preconceito é a discriminação e a desumanização.
Para que fique claro...No projeto de lei da deputada Tabata está escrito que o antissemitismo pode se materializar na incitação ou na ajuda em cometer ou justificar violência, assassinato ou danos contra judeus, em nome de ideologia radical, extremismo religioso ou argumentos desumanizantes. Também em propagar alegações injuriosas, difamatórias ou caluniosas, desumanizantes ou estereotipadas sobre os judeus, responsabilizar coletivamente os judeus como povo por atos reais ou imaginários, negar o fato histórico, a escalada ou a intencionalidade de genocídio de judeus durante o Holocausto, sustentar que o Holocausto é invenção ou exagero, afirmar que cidadãos judeus seriam mais leais a Israel ou a prioridades internacionais judaicas do que a sua própria nação, negar o direito à autodeterminação do povo judeu, utilizar símbolos, imagens ou narrativas. atreladas ao antissemitismo clássico, efetuar comparações entre as políticas israelenses e a dos nazistas e imputar os judeus de forma coletiva responsabilidade por ações praticadas pelo Estado de Israel. É aqui que o grande ponto polêmico está: ter como alvo o Estado de Israel, encarado como coletividade judaica. Vou dar só um exemplo hipotetico: O que você acharia se alguém dissesse que o problema não são os brasileiros, mas o Brasil?
Criticar politicamente Israel ou o governo de Israel não é tipificado no texto proposto, agora imputar a todos os israelenses e a todos os judeus, a responsabilidade por uma decisão política de um líder de um país, aí sim, poderá ser considerado antissemitismo.
Eu sempre digo que a minha geração é aquela que não precisa escolher entre ser judeu e ser brasileiro. Eu sou uma brasileira judia e uma judia brasileira. E entendo que a proteção a mim, dentro da minha pátria deve estar garantida. O judaísmo é uma religião e professa-la tem que ser garantido dentro do direito a liberdade religiosa. Garantido a mim e a todos. Sem antisemitismo e sem nenhum tipo de discriminação.
Chá de Ideias
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Chá de Ideias 〰️
Sobre a autora
Doutora em Administração de Empresas pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV), mestre em Comunicação Social e graduação em Relações Públicas (PUCRS); Servidora Pública há 27 anos, Diretora-geral do Senado Federal, desde 2015; professora do Mestrado e Doutorado em Administração Pública no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP); colunista do Portal R7, com o vídeoblog “Chá de Ideias”, desde fevereiro de 2025; membro do Conselho de Administração da Caixa Seguridade e autora de livros, entre eles “Intraempreendedorismo no âmbito público federal com foco na inclusão social”.

