Análise: Ainda sabemos escutar quem pensa?

Unesp faz 50 anos e reúne um Nobel de Literatura, cinco imortais da Academia Brasileira de Letras, economistas, historiadores, cientistas e escritores; o cronograma impressiona, mas a verdadeira pergunta é mais dura

Pessoa mexendo no computador  • Thomas Lefebvre/Unsplash

Se um Nobel e cinco imortais da Academia Brasileira de Letras não bastam para nos fazer parar e olhar o futuro, então o problema já não é a falta de faróis. É a nossa crescente vocação para a cegueira.

Vivemos na era da atenção sequestrada. Nunca houve tanta informação disponível, tanta opinião circulando, tanta frase pronta, tanta certeza instantânea.

Também nunca foi tão difícil sustentar uma ideia por mais de alguns segundos sem que outra tela, outra raiva, outra notificação ou outra urgência fabricada venha disputar o centro da nossa cabeça.

O mundo não nos pede apenas que saibamos. Pede que reajamos. E reagir o tempo todo é uma forma sofisticada de deixar de pensar.

O Fórum Unesp 50 Anos, realizado entre 13 e 15 de maio de 2026, no Memorial da América Latina, deveria ser lido para além da celebração universitária.

É um teste público de atenção. Reúne Mo Yan, Nobel de Literatura, e nomes como Ailton Krenak, Ana Maria Machado, Antônio Carlos Secchin, Jorge Caldeira, Lilia Schwarcz e Milton Hatoum, ao lado de economistas, cientistas e historiadores, para tratar de temas que não cabem no conforto da opinião rápida.

A programação atravessa literatura, lusofonia, energia, China, crescimento econômico, crise geopolítica e cultura, porque o futuro também chega assim: inteiro, misturado e sem pedir licença à nossa preguiça mental.

Durante décadas, acreditamos que o grande problema era a falta de acesso à informação. Hoje sabemos que isso era apenas metade da tragédia. A outra metade é a incapacidade de transformar informação em juízo.

A abundância não nos tornou necessariamente mais sábios. Tornou-nos mais excitáveis. O excesso de dados não produziu automaticamente entendimento; produziu, muitas vezes, uma multidão de pessoas informadas pela rama e convencidas em profundidade.

A economia da atenção entendeu antes da escola, da política e da imprensa que o bem mais escasso do século XXI não seria o petróleo, nem o lítio, nem sequer o dinheiro. Seria o nosso foco. Cada segundo de distração vale. Cada interrupção rende. Cada indignação fideliza. Cada polêmica barata organiza audiência.

A máquina não quer que pensemos melhor. Quer que permaneçamos ligados. De preferência nervosos, divididos e disponíveis.

É por isso que reunir pessoas para escutar ideias longas se tornou quase uma provocação. Uma conferência, uma mesa de debate, uma universidade aberta à cidade, um escritor diante do público, um cientista explicando o mundo, um economista discutindo o papel do Estado: tudo isso parece antigo apenas para quem confundiu novidade com velocidade.

Na verdade, talvez seja o contrário. Num tempo de ruído, a escuta voltou a ser uma tecnologia avançada.

O problema não é que faltem pessoas capazes de pensar. Elas existem. Escrevem, pesquisam, ensinam, erram, corrigem-se, atravessam disciplinas, dedicam décadas a perguntas difíceis. O problema é que já não sabemos bem o que fazer diante delas.

Transformamos o intelectual em ornamento, o escritor em fotografia, o professor em conteúdo, o debate em evento, a universidade em cenário. Aplaudimos nomes, mas nem sempre suportamos as ideias que eles trazem.

Uma sociedade perde inteligência antes de perder liberdade. Primeiro deixa de escutar. Depois deixa de distinguir. Mais tarde já não separa conhecimento de palpite, autoridade de arrogância, complexidade de enrolação, cultura de entretenimento.

Publicado originalmente na CNN Brasil, confira a análise completa abaixo.

Próximo
Próximo

Fórum Unesp 50 Anos reúne Mo Yan, Krenak, Agualusa e grandes vozes do pensamento mundial