Algo entre podcasts e autoanálise

Tenho escutado muitos podcasts ultimamente. 

Seja perambulando pela casa, fazendo musculação, olhando pela janela do ônibus ou segurando na barra de metal do metrô. Escuto desde atualizações políticas até discussões sobre estilo de vida e relações amorosas.

Uma sensação de estranhamento sempre me atinge nessas horas: parece que a vozinha da minha consciência se teletransporta e participa das falas ou conversas que passeiam pelos meandros das minhas orelhas.

Realmente, já me senti muito acolhida ouvindo conselhos de estranhos, publicados anos atrás, em línguas estrangeiras, que não tinham nenhuma relação aparente com a minha pessoa e vida. Mas, de algum modo, foram reconfortantes.

Já escutei podcasts sobre psicanálise quando precisei pensar sobre rupturas e transformações de algumas relações pessoais. Parecia um pouco um ato desesperado, quase envergonhado, de busca por autoajuda. Mas não acho que se trate disso.

A cultura do podcast tem um certo saudosismo bonito que a deixa mais palatável do que ler 21 lições para mudar de vida ou algo do gênero — retoma a tradição do rádio. Não me sinto muito distante das donas de casa que passavam seus dias em companhia de rádios, ouvindo de música até novelas, atualizações de trânsito e do contexto político.

xícaras vazias no concreto | acervo da autora

Um podcast é um pouco como escutar um devaneio ou uma conversa de bar ou café. As ondas nos transportam para esse espaço de trocas como se de repente fôssemos parte do assunto.

Não é raro me perceber na rua com expressões faciais estranhas, diretamente relacionadas ao que estou ouvindo. Ou, ainda, às vezes me acontece de rir ou até falar frases curtas sem perceber — em geral, quando discordo de alguma opinião ou ponto de vista.

De alguma forma, isso se associa ao falar sozinho em casa. Daí o processo se inverte um pouco, é como se um podcast se fizesse nessas andanças entre cômodos — que não raramente envolve mudanças abruptas e não roteirizadas de assuntos, e possivelmente de língua — em que há um pseudo processo autoanalítico baseado em uma verborragia meio insconsciente. É uma atividade que se classifica entre discutir consigo para passar o tempo ou remoer alguma coisa completamente inútil que já passou e que já não tem qualquer relevância — mas que insiste em coçar nosso ego.

Há certas conversas com amigos que também dariam ótimos podcasts. Essas que surgem quando vamos encontrar uma amiga que não vemos há algum tempo num café de tarde e de repente são três e meia da manhã, diversos assuntos foram (re)abordados sob perspectivas não muito inovadoras mas que de qualquer forma serviriam para entreter alguém no mercado com fones de ouvido.

De todo modo, esse algo que o podcast propicia é uma boa companhia, assim como o radinho que falava esquecido em cima de algum móvel da cozinha.

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