A indústria da memória: Portugal compra manuscritos para preservação
País adquiriu manuscritos de Fernando Pessoa e outros autores por pouco mais de 73 mil euros. Num tempo em que a tecnologia converte livros em dados e às vezes destrói o objeto para guardar a informação, há esperança num Estado que ainda compra papel.
O gesto parece pequeno. Num leilão em Lisboa, o Estado português exerceu o direito de preferência e levou para a Biblioteca Nacional poemas de Pessoa, cartas a Ofélia Queiroz, um manuscrito de Teixeira de Pascoaes, um conto de Vitorino Nemésio e correspondência entre dois amantes condenados: Camilo Castelo Branco e Ana Plácido. Aqueles papéis ganharam algo que o mercado sozinho dificilmente garante: perenidade.
O contraste com a inteligência artificial é quase perfeito. No processo judicial sobre a Anthropic, tornou-se público que a empresa comprou livros impressos, cortou as lombadas, digitalizou as páginas e descartou os exemplares físicos para formar uma biblioteca digital usada no treinamento dos seus modelos. Um tribunal americano considerou “fair use” a conversão de cópias legalmente compradas. A lógica técnica é compreensível. A imagem fica: destruir o recipiente para conservar a informação.
Publicado originalmente na CNN Brasil, confira a coluna completa abaixo.

