A CNBB e a Ditadura Militar
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi criada em 1952, em um período de profundas transformações sociais e políticas no país.
Desde sua origem, a Igreja Católica brasileira abrigava diferentes correntes de pensamento. De um lado, setores conservadores, fortemente identificados com a defesa da ordem social tradicional e com o anticomunismo; de outro, setores progressistas que começavam a compreender que a pobreza, a desigualdade e a exclusão social também constituíam graves problemas políticos e morais.
Experiências como a Ação Católica Brasileira, a Juventude Operária Católica e a Juventude Universitária Católica contribuíram para a formação de uma nova consciência social dentro da Igreja. Essa convivência entre posições distintas faria da CNBB, ao longo das décadas seguintes, um espaço de disputas e contradições que refletiriam as próprias tensões existentes na sociedade brasileira.
Em março de 1964, setores conservadores da Igreja participaram ativamente da mobilização que desembocou na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Sob o pretexto de defender a família, a religião e a democracia contra uma suposta ameaça comunista, milhares de pessoas foram às ruas para pressionar contra o governo constitucional de João Goulart.
Dois meses depois da derrubada de João Goulart, a CNBB divulgou uma declaração que expressava o apoio de significativa parcela da hierarquia ao novo regime. O documento afirmava que as Forças Armadas haviam impedido a implantação de um “regime bolchevista” no país e agradecia a Deus pelo “êxito incruento de uma revolução armada”.
À medida que a repressão se aprofundava, as prisões políticas, as cassações, a censura, as perseguições e a tortura deixaram de ser acontecimentos isolados. Foi nesse momento que começaram a surgir fissuras na relação entre a Igreja e os militares. A eleição de Dom Aloísio Lorscheider para a secretaria-geral da CNBB, em 1968, ocorreu justamente no ano em que a ditadura mergulharia em uma nova e mais brutal fase com a edição do Ato Institucional nº 5. A partir daí, o arbítrio ganhou dimensão ainda maior.
A Igreja começava a perceber que não era possível falar em defesa da dignidade humana e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente diante da tortura. Dom Hélder Câmara, Dom José Maria Pires, Dom Antônio Fragoso e Dom Paulo Evaristo Arns tornaram-se algumas das vozes mais firmes contra a violência do Estado. Denunciaram prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos, perseguições políticas e a crescente desigualdade social.
Ao lado dos bispos que enfrentavam o regime, havia aqueles que continuavam apoiando a ditadura. Dom Geraldo de Proença Sigaud foi um dos mais conhecidos representantes dessa corrente conservadora. Havia ainda bispos moderados, que procuravam preservar o diálogo com as autoridades e evitavam uma confrontação política aberta.
A 15ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em Itaici, em 1977, ocorreu nesse contexto de crescente desgaste da ditadura e de avanço das pressões pela abertura política. A posição crítica da entidade diante do autoritarismo já estava muito mais consolidada. A Igreja havia percorrido um longo caminho desde 1964.
Não se pode apagar o apoio inicial de setores importantes da Igreja ao golpe, assim como não se pode ignorar o papel posteriormente desempenhado por muitos de seus integrantes na denúncia dos crimes da ditadura. A CNBB acabou ocupando um lugar importante na luta pela redemocratização brasileira.

