A arte de construir juntos

Construir juntos é criar condições para que vozes diferentes possam existir, se escutar e encontrar uma direção comum. Na arte, como numa orquestra, é justamente da diferença que nasce a força do conjunto.

Acervo da autora

Na construção da FliportoArte, festival pernambucano, tenho me percebido muitas vezes como a regente de uma grande orquestra. 

Uma orquestra só existe porque os instrumentos são diferentes.

Cada um tem seu timbre, sua intensidade, seu momento de entrar e também de silenciar.  Há uma partitura, certamente, mas há também aquilo que acontece entre as pessoas enquanto a música está sendo feita.

É esse lugar que tenho ocupado: o de articular diferenças sem apagá-las.

Artistas, galerias, instituições, curadores, produtores, parceiros e apoiadores chegam com repertórios, expectativas e maneiras distintas de compreender a arte. Minha tarefa é fazer essas forças conversarem, perceber onde podem se encontrar e, algumas vezes, transformar ruído em possibilidade.

Regência, para mim, não é controle.

É atenção.

É saber quando conduzir e quando escutar. Quando insistir e quando mudar o andamento. É compreender que a força do conjunto não está em fazer todos pensarem da mesma maneira, mas em criar uma estrutura suficientemente sólida para que diferentes vozes possam existir juntas.

Como artista, reconheço algo familiar nesse processo. A matéria também responde. O tecido cede, a linha tensiona, a madeira reage, o metal resiste. As mãos propõem um caminho, mas não determinam tudo.

Uma construção coletiva é assim.

Existe intenção, direção, trabalho — mas existe, sobretudo, relação.

Essa experiência me faz pensar também nas relações entre Brasil e Portugal. Temos uma história que nos atravessa, complexa e profunda, mas construir juntos no presente exige mais do que olhar para aquilo que já nos une. Exige criar novos espaços de troca, circulação e escuta, capazes de aproximar artistas, instituições, projetos e diferentes modos de pensar.

Interessa-me olhar para essa relação a partir do agora: o que Brasil e Portugal podem construir juntos hoje por meio da arte?

Acredito que essa seja uma das tarefas mais delicadas — e mais bonitas — de quem ocupa o lugar da regência: não eliminar as diferenças, mas criar condições para que elas produzam música.

Recebi com muita alegria o convite feito por José Manuel Diogo e aceito participar como colunista do site da Associação Portugal Brasil 200 Anos.

Gostaria de abrir minha colaboração escrevendo a partir do lugar que ocupo e das experiências que vivo: como artista visual e gestora cultural, interessam-me especialmente os encontros, e as redes que a arte é capaz de criar.

Pretendo desenvolver uma coluna sobre arte e cultura contemporânea.

Quero falar sobre artistas, exposições, territórios, circulação, memória, matéria, cultura popular, mercado, instituições e projetos que aproximem os dois países, trazendo também questões que estejam sendo vividas no presente.

Para abrir esse percurso, gostaria de escrever sobre “construir junto”: como projetos culturais se tornam espaços de encontro entre diferentes vozes, territórios e experiências.

É um assunto que estou vivendo intensamente neste momento e que também abre uma reflexão sobre Brasil e Portugal: o que podemos construir hoje, juntos, para além da história que já nos une?

Agradeço a José Manuel Diogo pelo convite e pela confiança.

Um abraço, Anna Guerra

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