páginas de estimação


Ao acaso, me percebo levando alguns livros para passear. 

Separo, sempre com descuido cauteloso, volumes literários, recentes ou antigos, para atulhar minha pequena bolsa, que me pesa o ombro esquerdo durante os trânsitos de um local ao outro.

Caminho pela cidade, habito os espaços de sempre. A condução lotada ao final da tarde, com meus livros cansados, intocados tal como Maria virgem. Me habituo ao peso das histórias mesmo antes de conhecê-las, de ler seus nomes, personagens, investigar autores. 

Por vezes, deixo um título ou outro em cima da mesa de um boteco qualquer.  Alguns curiosos o observam de soslaio, já as figuras mais descontraídas perguntam se podem acariciar algumas páginas ao acaso. 


Ao viajar, encaro um dilema: a escolha de volumes para conviver durante uma quantidade maior e delimitada de dias. É preciso calma e método. Pensar no ambiente, na dinâmica da rotina que será criada naquele novo espaço, se a areia estiver envolvida deixe aqueles de capa dura e páginas amareladas em casa, quando há muitas trilhas é melhor os da companhia de bolso. Por aí se sucedem discussões intermináveis entre meus pensamentos. Levo sempre a quantidade errada: muitos ou poucos, de formatos inapropriados e pouco práticos para adequações espontâneas como chuvas de verão e barcos. Insuficiente ou abundante. Quando me esqueço de levar livros a mais, leio todos e sempre preciso pegar mais alguns emprestados. Quando levo livros de mais, é comum eu mal tocá-los. 


Recentemente, porém, tive que decidir levar o kindle que permanecia intocado e sem qualquer bateria desde que eu o havia ganhado de aniversário. Fui viajar durante dois meses, e cada grama na minha bagagem teve de ser contado. Logo, adeus às minhas páginas de estimação. Confesso que me apaziguei e adquiri um gosto novo, especial, pelo kindle e suas múltiplas possibilidades de incluir pdfs e livros em línguas estrangeiras. E, sua leveza e graciosidade em adaptar-se às situações mais bizarras e variadas.

Porém, me deparei com um novo problema: uma compulsão por adquirir novos livros enquanto eu estava viajando. Assim, se embarquei com apenas um preferido em papel, voltei com uma mala a tiracolo extra, que dentre outras bobagens que compramos em viagem porque já estamos lá mesmo e afinal porque não gastar mais só com essa pequena colher vintage inútil em uma feira de rua, havia pelo menos 10 volumes novos. Alguns antigos, outros cheirando a papel recém impresso, de línguas variadas e gêneros improváveis, mas todos juntos voltando para me fazer companhia.

Os livros que levo a passeio estão, em sua maioria,  sujeitos ao tempo de convivência prévia antes de suas histórias me permearem e assim suas carapuças serem, fatalmente, esquecidas pelas estantes de minha casa. 

São como um cão de guarda, só que sem as patas, a carne, os latidos, os dentes, a respiração. Uma vida inanimada que acompanha apenas o espírito. 


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