Slop. Como os erros de IA podem ajudar a ciência em língua portuguesa

O “slop” científico — em português lixo, prosa oca, ou entulho científico — não é apenas um acidente: é um alarme. E, como todo alarme, só faz sentido se alguém decidir ouvi-lo antes de o ignorar por incômodo.

O avanço do chamado AI slop — textos científicos mal escritos ou mal fundamentados produzidos com ajuda de inteligência artificial — tem sido tratado como uma ameaça à credibilidade da ciência. Mas, visto do eixo Portugal–Brasil, esse fenómeno pode ser lido de outra forma: como uma oportunidade rara de reflexão e reorganização do espaço científico e universitário de língua portuguesa.

A crise atual não é provocada pela tecnologia em si. A inteligência artificial apenas acelerou um problema anterior: um sistema científico global que premiou quantidade, velocidade e aparência em detrimento de responsabilidade, autoria e densidade intelectual. O slop funciona, assim, como um alarme. Pela primeira vez, grandes conferências e instituições admitem publicamente que já não conseguem distinguir com segurança conhecimento sólido de ruído bem formatado.

O ruído também expõe uma pergunta incômoda: por que o espaço lusófono aceita quase sem debate que a validação científica legítima precise vir sempre de fora?

Para países como Portugal e Brasil, essa confissão muda o jogo. Durante décadas, universidades lusófonas foram pressionadas a publicar em inglês, em revistas e congressos que não controlam, seguindo métricas definidas fora do seu contexto cultural e institucional. Quando esse modelo entra em crise, surge uma escolha estratégica: insistir na imitação de um sistema desgastado ou aproveitar a fissura para repensar prioridades.

Proteger-se do slop não significa proibir o uso de ferramentas de IA. Significa reafirmar critérios. Autoria clara, revisão responsável, tempo de reflexão e relevância social voltam a ser centrais. Portugal e Brasil têm vantagens comparativas nesse debate: uma tradição universitária fortemente ligada às humanidades, uma língua comum falada por mais de 260 milhões de pessoas e uma história de circulação transatlântica de ideias.

O ruído também expõe uma pergunta incômoda: por que o espaço lusófono aceita quase sem debate que a validação científica legítima precise vir sempre de fora? A proliferação de textos vazios evidencia o esgotamento de um modelo excessivamente dependente do olhar do Norte global. Em vez de apenas reforçar mecanismos de controlo importados, este pode ser o momento de investir em ecossistemas próprios de avaliação, revistas de referência em língua portuguesa e cooperação científica estruturada entre Portugal e Brasil.

A inteligência artificial trouxe de volta uma questão essencial: quem responde pelo que é publicado? Se a universidade souber aproveitar este momento, o slop não será lembrado como decadência, mas como o choque necessário para restaurar densidade, ética e soberania intelectual. O risco maior não é usar máquinas para escrever — é desperdiçar, mais uma vez, a chance de decidir como e para quem se produz ciência em português.

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