O tule verde estrelado
Sempre ouvi que um bom escritor é aquele que sabe bem observar.
Mas, no fim, no que consiste esse “bem observar”?
Meus olhos nunca foram tão atentos - e acho que nem serão de novo - quanto durante o período de Pandemia.
No pico da adolescência, em um apartamento pequeno, com uma janela que dava diretamente para a sala da minha vizinha, me lembro de passar longos períodos tentando absorver cada detalhe do microcosmo ao qual eu tinha acesso pelas fendas da parede.
Essa vizinha que ficava exatamente na mesma altura do meu apartamento foi a que mais me marcou.
Criei uma espécie de laço silencioso com ela. Via ela andando entre os cômodos, conversando com o namorado. Percebi quando o namorado parou de ir visitar.
Em determinado momento daqueles meses em casa, voltei a tocar piano.
E, ela também.
Às vezes, acontecia de eu começar a praticar uma música e, segundos depois, ouvir as teclas do outro prédio.
Me lembro da cortina de tule verde, com estrelas prateadas, que esvoaçava da janela dela.
É tão íntimo ter acesso a esse espaço da vida de alguém. Me senti entrando em sua casa sem ser convidada. Tinha algo de emocionante e inquietante nisso.
E, claro, ela também poderia ver a minha vida toda.
Tento recuperar essa noção de observar com cautela mas, acima de tudo, com interesse genuíno.
Depois da Pandemia, parece que toda essa atenção para os objetos e beiradas imediatamente mais próximos cedeu espaço para uma certa vergonha de sequer erguer os olhos acima da linha do piso.
Me lembrei desse momento com carinho. Mudei de casa, já não sou adolescente. Mas deixo o apartamento com cortinas verdes alugar algumas gavetas da memória. É uma lembrança bonita de um momento tão complexo.

