Memória e Resistência no Cinema Brasileiro


A censura imposta à produção cinematográfica brasileira durante a ditadura militar foi um dos instrumentos mais eficazes de controle ideológico do regime. Ela resultou, por exemplo, na interrupção das filmagens de Cabra Marcado para Morrer, retomadas apenas vinte anos depois, quando o país já ensaiava a reconstrução democrática. Naquele período, o cinema era impedido de abordar temas históricos, tanto por razões políticas quanto morais. No entendimento dos ditadores, o cinema brasileiro exercia forte influência na formação de mentalidades, o que servia como justificativa para a imposição de uma censura rigorosa e sistemática. Cineastas como Glauber Rocha, Ruy Guerra e Joaquim Pedro de Andrade eram permanentemente vigiados pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

Paradoxalmente, muitos filmes censurados ou mutilados recebiam o selo de “boa qualidade”, o que os credenciava a circular no exterior, já que não estavam mais ao alcance direto dos censores. O Cinema Novo, cujo maior expoente foi o baiano Glauber Rocha, adotando o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, intensificou a resistência cultural ao regime ao expor a realidade nacional. Obras como Terra em Transe, Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Os Fuzis escancararam as contradições sociais e políticas do país. Paralelamente, o Cinema Marginal também refletiu o ambiente de opressão, recorrendo a metáforas, alegorias e denúncias para driblar a censura e provocar reflexão crítica.

As gerações pós-ditadura, em especial a juventude, precisam conhecer esse período em que a democracia foi violentamente atacada.

Algumas obras cinematográficas cumprem papel decisivo nesse resgate histórico: Bye Bye Brasil (1979), Eles Não Usam Black-tie (1981), Pra Frente Brasil (1982), O Que É Isso, Companheiro? (1997), Zuzu Angel (2006), O Dia que Durou 21 Anos (2012) e Soldados do Araguaia (2017). São filmes que confrontam a tentativa recorrente de apagar da memória coletiva uma das fases mais sombrias da história brasileira.

A Constituição Federal de 1988 abriu novas possibilidades para a produção cinematográfica ao garantir a liberdade de expressão e extinguir os mecanismos oficiais de censura. Esse marco permitiu que o cinema brasileiro voltasse a tratar dos mais diversos temas sem o cerco autoritário do Estado.

Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, filmes que receberam premiações relevantes do cinema mundial em anos consecutivos, apresentam ao público histórias marcadas por sofrimento, indignação, dor e crimes cometidos durante a ditadura. Cada vez mais, o cinema se consolida como um espaço fundamental de reflexão crítica sobre os 21 anos de autoritarismo vividos pelo país, seja por meio de denúncias bem construídas, seja pela criação de uma memória cultural duradoura. A riqueza estética e temática dessas obras evidencia o impacto profundo do Golpe de 1964. O reconhecimento internacional reafirma o audiovisual como instrumento de projeção cultural do Brasil. Walter Salles, Kleber Mendonça Filho, Fernanda Torres e Wagner Moura fizeram história.

Ao receber o prêmio Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, Wagner Moura declarou: “O Agente Secreto é um filme sobre memória, sobre a falta dela e sobre trauma geracional. Eu acho que, se o trauma pode ser passado de geração para geração, os valores também podem”. Não por acaso, foi a primeira vez que o Brasil conquistou dois prêmios na mesma edição do Globo de Ouro: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator.

A vitória de O Agente Secreto tem, para nós paraibanos, um significado ainda maior. O elenco conta com oito conterrâneos: Joalisson Cunha, Cely Farias, Buda Lira, Suzy Lopes, Fafá Dantas, Flávio Melo, Beto Quirino e Márcio de Paula. Viva o cinema brasileiro, que se afirma no cenário internacional com talento, memória e resistência — e com a marcante participação de atores e atrizes da Paraíba.


Sobre O autor

Jornalista, escritor e historiador.

Integrante da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba

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