Conhecendo o mar

Quando passamos a morar em João Pessoa, a praia tornou-se a grande novidade para mim e minhas irmãs, todos ainda muito pequenos. Vínhamos de um universo onde o mar era apenas uma referência distante, inexistente na experiência cotidiana.

João Pessoa | Divulgação

Na década de 1950, a cidade começava a avançar lentamente em direção à orla, acompanhando o crescimento populacional e as transformações urbanas. Estávamos residindo em Miramar, um dos bairros então recém-integrados à Capital, anteriormente conhecido como Imbiribeira. A proximidade com Tambaú ampliava a curiosidade e a expectativa próprias da infância.

Foi nesse contexto que meus pais organizaram um passeio dominical para que conhecêssemos o mar. Saímos todos de bonde, meio de transporte que fazia parte da paisagem urbana daquele tempo. A linha férrea passava em frente à nossa casa, na Avenida Tito Silva, partia da Estação Cruz do Peixe — situada nas proximidades do atual Hospital Santa Isabel — e seguia até próximo à Gameleira, nos limites entre Tambaú e Manaíra. O deslocamento era vivido como um acontecimento.

O primeiro contato com o mar permaneceu gravado na memória. A extensão infinita da água, o gosto salgado, o movimento das ondas, a brisa constante e a textura da areia compunham um cenário inteiramente novo para olhos infantis. Tudo despertava surpresa e encantamento. Como era hábito comum naquele período, levávamos de casa os alimentos para a refeição do dia. O que hoje se convencionou chamar de “farofada” era, à época, parte natural do lazer familiar.

A área ao redor da centenária gameleira concentrava a maior presença de banhistas. Ali funcionava o Elite Bar, no mesmo local onde atualmente se encontra uma agência do Banco do Brasil. Tratava-se do primeiro equipamento turístico da orla marítima de João Pessoa. Além de bar e restaurante, o estabelecimento alugava boias feitas de pneus de caminhão e trajes de banho para homens e mulheres, ampliando o acesso ao banho de mar.

Tambaú só alteraria de forma significativa seu perfil urbano a partir da década de 1960, quando deixou de ser predominantemente um bairro de veraneio para assumir características residenciais permanentes. Até então, era comum que famílias pessoenses mantivessem sua residência principal no centro da cidade ou em áreas adjacentes e possuíssem, em Tambaú, uma segunda casa destinada exclusivamente aos períodos de verão.

Apesar de ter vivido boa parte da vida próximo à praia, nunca desenvolvi uma relação íntima com o mar. O banho de mar foi sempre eventual. Minha presença na orla se dava, sobretudo, pelo prazer da contemplação: observar o movimento das águas, desfrutar da paisagem e aproveitar o sol, que lentamente marcava o corpo com os sinais do tempo vivido.

Assim, em janeiro de 1958, deixei de ser o menino do interior que nunca havia visto o mar. Ainda que jamais tenha sido um um "garoto de praia", estabeleci, desde então, uma ligação duradoura com a vida praieira, seja morando nos bairros da praia, seja incorporando a rotina os pequenos rituais de lazer e observação que o mar sempre me proporcionou.

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Sobre O autor

Jornalista, escritor e historiador.

Integrante da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba

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