10 contra

Odeio quando me pedem para imaginar onde e como quero estar em 10 anos.

Por um lado, porque claramente tudo que eu imaginar só reflete o que sou agora. E, de fato, entendo que esse exercício seja mais um disparador de reflexões sobre o presente do que uma tentativa de prever as consequências reais das decisões em aberto. 

Por outro lado, me incomodo com a falta do que falar — logo eu, tão adepta ao silêncio. Não tenho ideia de onde quero estar em 10 anos, e o problema interno que esse não saber produz em mim redireciona qualquer descontentamento momentâneo ao interrogador.

É cômico: sou o tipo planejado, organizado. Não vivo como se encarasse a vida tal qual um livro em branco aberto, sem tentar prever ou me preparar para algum futuro.

Essa questão me é trágica justamente porque já penso demais no futuro. Em todas as mil possibilidades antes da decisão ser tomada e o campo do ideal ser com ela ceifado.

Sei que não há qualquer chance de acertar um possível devir. Mas fico buscando, loucamente, pelo menos prever a sucessão das coisas e sensações do dia seguinte. Sempre embaralho tudo.

lua quase cheia | acervo da autora

O tempo tem dessas coisas: muda repentinamente, brinca com nossas expectativas inventadas, nos apresenta caminhos estranhos que tornam-se surpresas boas.

Em 10 anos quero, no mínimo, não estar pensando nos 10 seguintes.

Se vamos refletir sobre o presente, prefiro encará-lo sem o risco de me perder na visão periférica que procura o eu futuro.

Claro, reitero, o futuro tem seu papel de ordenar os dias. Há propósitos, planos — mesmo que reinventados constantemente. Mas nada nunca chega se o presente é dissociado da experiência. É impraticável viver me guiando por algo que o meu suposto eu em 10 anos vai experienciar.

Mas tenho tendência a travar com perguntas relativamente simples, de modo que as voltas exaustivas ao inconsciente poderiam ser evitadas se respondesse apenas que amaria ter uma cozinha bonita, estabilidade financeira, ou outra dessas frases prontas que todo mundo usa numa situação dessas.

Mas não consigo. E estou ficando sem desculpas para evitar uma resposta “pronta entrega”, e com ela correr o risco da dívida com o senhor eu futuro.

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