O acordo UE–Mercosul entrou em vigor. O que muda agora?
A Europa decidiu avançar com o acordo Mercosul–UE mesmo sem consenso pleno. A pergunta deixa de ser Se e passa a ser Quem.
Plenário do Parlamento Europeu em Estrasburgo • 20/01/2026 REUTERS/Yves Herman/File Photo
Como previsto no tratado, a Comissão Europeia confirmou a aplicação provisória do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, mesmo apesar de o Parlamento Europeu ainda não o ter ratificado e de existir contestação jurídica em curso. A decisão foi viabilizada após a ratificação da Argentina e do Uruguai. O Brasil aprovou ontem na Câmara. Agora falta o Senado.
Reunindo 700 milhões de pessoas e mais de 22 trilhões de dólares em PIB combinado, posiciona-se como a maior zona de livre comércio do planeta. Resposta geopolítica excepcional, o acordo representa o nascimento de um novo eixo global. Nele, pela primeira vez na história da humanidade, Norte e Sul se sentam à mesma mesa em pé de igualdade, criando uma alternativa forte e credível à bipolarização do mundo entre Estados Unidos e China.
Os países do Sul garantem acesso privilegiado às economias e aos mercados mais sofisticados — e de mais alta renda — do mundo; abrindo aos empresários brasileiros possibilidades que muito poucos ainda conhecem, mas que em breve irão transformar a economia local. Ao mesmo tempo, a Europa reduz as dependências estratégicas da energia russa, das cadeias chinesas e das tarifas americanas. Reconfigura-se o mapa do comércio global.
Embora a França, que lidera a oposição europeia, reaja, alegando a entrada de produtos agrícolas mais competitivos e questionando padrões ambientais, e o Parlamento Europeu tenha pedido ao Tribunal de Justiça da UE que avalie a legalidade da aplicação antecipada do tratado, ele hoje mostra-se imparável. O acordo está aí! Viva o acordo.
Agora exige-se visão. O acordo não é apenas um tratado de tarifas: é um redesenho da relação Norte–Sul no século XXI e Portugal e Brasil surgem como plataformas naturais dessa travessia atlântica — pela língua, pela cultura e pela capacidade de mediação económica. O Mercosul ganha acesso a um mercado sofisticado; a Europa ganha acesso a matérias-primas, alimentos e novos mercados de escala.
A verdadeira oportunidade, porém, não está nos governos — está nos atores privados capazes de antecipar este movimento. Quem estruturar cadeias de valor, negócios, projetos culturais e plataformas de investimento agora ocupará a posição de ponte entre dois mundos que acabam de aproximar-se de forma revolucionária.
A política ainda pode estar a discutir, mas a economia já começou a atravessar o oceano.
Publicado originalmente na CNN Brasil, confira abaixo.

