Leituras da infância

Há lembranças que não se anunciam como grandes acontecimentos, mas que, com o passar do tempo, revelam-se decisivas na formação de quem nos tornamos. Os gibis pertencem a essa categoria de memórias discretas e fundadoras. Eles chegaram à minha infância num tempo em que a imaginação era o brinquedo mais valioso e o Tempo parecia caminhar sem urgência.

As revistas de histórias em quadrinhos, conhecidas entre nós como gibis — nome herdado da primeira publicação do gênero no Brasil, lançada em 1939 — foram meu primeiro contato prazeroso com a leitura. Por meio de suas páginas coloridas, aprendi a decifrar palavras, a compreender narrativas e, sobretudo, a perceber que ler podia ser uma forma de encantamento. Sem que eu soubesse, ali começava uma relação duradoura com os livros.

A infância e a pré-adolescência vividas nas décadas de 1950, 1960 e 1970 foram marcadas por uma rotina simples. Não havia televisão em todas as casas, tampouco videogames ou telas luminosas disputando atenção. Havia o silêncio das tardes, o movimento contido das ruas, a curiosidade sem pressa e os gibis, que se abriam diante de nós como portais para mundos imaginários. Eram histórias de aventura, humor e heroísmo, mas também lições sutis de linguagem, valores e imaginação.

Colecionar gibis era um hábito quase ritualístico. Cada exemplar era guardado como pequeno tesouro, mesmo quando já trazia as marcas do uso frequente.

Havia ainda a prática da troca, uma experiência coletiva que dava sentido àquele universo. No bairro onde cresci, Jaguaribe, o ponto de encontro era a porta do Cinema Santo Antônio, ao lado da Igreja do Rosário, durante as matinês de domingo. Ali, mãos curiosas folheavam revistas gastas, e a alegria estava menos na posse do papel e mais no encontro, na conversa e na partilha.

Nem todos viam os gibis com bons olhos. Alguns pais temiam que aquelas leituras afastassem os filhos dos livros escolares. Não deixava de haver exageros, e, em certos momentos, o rendimento na escola sofria. Ainda assim, não carrego dúvidas: cresci intelectualmente com aquelas leituras. Foram os gibis que despertaram curiosidades, alimentaram sonhos e pavimentaram o caminho que me conduziu ao gosto pela leitura, traço que permanece como parte essencial da minha identidade.

A memória, sempre seletiva, devolve com nitidez os personagens que habitaram aquele tempo: O Recruta Zero, Bolinha e Luluzinha, A Turma do Pererê, Brucutu, Pernalonga, Gasparzinho, Zé Carioca, Mickey, Tio Patinhas, Pato Donald. E, ao lado deles, os heróis que nos pareciam quase míticos: Mandrake, Fantasma, Batman, Mulher-Maravilha, Homem-Aranha, X-Men, Charlie Chan, Tarzan. A Turma da Mônica só surgiria mais tarde, já no final da década de 1970, quando parte daquela infância começava, silenciosamente, a ficar para trás.

Entre essas recordações, guardo com especial carinho a lembrança de uma pequena revista editada pelo SESI, chamada Sesinho, que deixou de circular no início dos anos 1960. Ir, mês após mês, buscá-la na portaria do Externato Sagrada Família era um gesto simples, quase banal, mas que o tempo tratou de transformar em memória preciosa.

A combinação das imagens com textos curtos facilitava a compreensão das histórias e despertava, de maneira quase mágica, a capacidade de interpretar o mundo por meio da leitura. São experiências do universo infantil que o tempo levou consigo, mas que permaneceram como alicerces silenciosos da minha formação. Afinal, muito do que somos hoje, começa ali nas páginas que lemos, quando ainda aprendiamos a entender o mundo - e a nós mesmos.

Na Linha do Tempo

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Sobre O autor

Jornalista, escritor e historiador.

Integrante da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba

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