Jornalismo Critico em Tempos de Dominação Midiática
Sempre acreditei que a democracia não se sustenta apenas no voto, mas na possibilidade de as pessoas terem acesso a múltiplas vozes, interpretações e narrativas sobre a realidade. Ao longo da minha trajetória como leitor e escritor, percebi que a comunicação é um dos territórios mais decisivos da política. Quem controla a palavra, controla também o imaginário social, as memórias coletivas e os horizontes do possível.
Cresci num país em que a informação era filtrada por poucos grupos empresariais, frequentemente associados ao poder político e econômico. Em muitos momentos da nossa história recente, especialmente nos períodos autoritários, a mídia hegemônica serviu mais para silenciar do que para informar. Essa experiência marcou profundamente a minha compreensão sobre o papel social do jornalismo e da comunicação.
A chegada das novas tecnologias e das redes sociais abriu fissuras nesse monopólio. Pela primeira vez, sujeitos historicamente invisibilizados passaram a narrar suas próprias histórias. Vi surgir blogs, coletivos, rádios comunitárias, portais alternativos e iniciativas independentes que desafiaram o discurso oficial.
Essa ampliação do espaço público representou um avanço democrático inegável. Contudo, também testemunhei como esse mesmo ambiente digital passou a ser instrumentalizado para espalhar mentiras, estimular o ódio e manipular consciências, muitas vezes com financiamento e engenharia profissional.
A Constituição de 1988 assegurou a liberdade de expressão como um dos pilares do Estado democrático. Mas aprendi, ao longo dos anos, que liberdade sem responsabilidade social pode se transformar em instrumento de dominação. Quando a comunicação é capturada por algoritmos, por interesses econômicos ou por projetos autoritários, ela deixa de ser emancipadora e passa a ser mecanismo de controle simbólico.
A mídia tradicional, em suas diversas formas, nem sempre cumpre o papel de fiscal do poder. Muitas vezes atua como parte dele, naturalizando desigualdades, criminalizando movimentos sociais e legitimando políticas que aprofundam injustiças. Esse comportamento não é neutro; ele revela uma posição de classe, uma visão de mundo e um projeto de sociedade.
Por isso, sempre vi a mídia independente como um espaço de resistência e de esperança. Ela rompe com o monopólio simbólico dos grandes conglomerados, desafia os oligopólios familiares e empresariais da comunicação e cria condições para que outras narrativas emerjam. Ao produzir informação fora das amarras mercadológicas, ela disputa aquilo que Antonio Gramsci chamou de hegemonia cultural, questionando o senso comum e revelando os conflitos ocultos sob a aparência da normalidade.
Acredito que fortalecer a mídia independente é fortalecer a democracia substantiva, aquela que não se limita às instituições formais, mas que se constrói no cotidiano das lutas sociais, na defesa dos direitos humanos e na construção da cidadania crítica. Trata-se de devolver à sociedade o direito de contar a sua própria história, sem tutelas e sem censuras disfarçadas.
Escrever, ensinar e refletir sobre comunicação, para mim, é também um gesto político e ético. É uma forma de resistência contra o esquecimento, contra a manipulação e contra a domesticação da consciência.
Em tempos de retrocessos e ameaças autoritárias, a mídia independente não é apenas uma alternativa: é uma necessidade histórica.
Na Linha do Tempo
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Sobre O autor
Jornalista, escritor e historiador.
Integrante da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba

