Domingo ou o dia morno
Domingos são dias curiosos e difíceis, mas aparentemente leves e, por isso, enganam. Sagrados, em teoria, melancólicos na prática. O dia que encerra o descanso não deve ser confundido com o descanso por essência — que está, como muitos sabem, reservado ao sábado e a sexta-feira depois do expediente de trabalho ou da faculdade.
Discuto aqui uma ideia de domingo, que para muitos que folgam às segundas e em outros dias úteis parece escapar.
A cidade está mais silenciosa no período da manhã. Sim, acordar no domingo é bom e a série de enganos começa nessa ato tolo das pálpebras cansadas da madrugada anterior.
manhã ou fim de tarde de um domingo perdido no tempo | foto fornecida pela autora
Quando as férias se estendiam, todos os dias pareciam domingos — ou assim eu ouvia serem definidos. Para mim, quando tenho o luxo de não precisar lembrar em que dia da semana estou, é porque os dias se parecem com sábados. Ou, talvez se crie nesse momento uma nova e temporária categoria que desafia a lógica da semana e se perde no correr das horas sem beiras — permanece silenciosa, não nomeada.
De todo modo, detesto domingos, mesmo quando tenho ótimas tardes e consigo escapar da pequena melancolia que antecede a segunda-feira.
O domingo é como um ano inteiro. Um microcosmo de acontecimentos que desperta a lembrança de que se está vivo, de que o tempo vai passando e de que não se pode pará-lo. O domingo aparenta estático — sua força reside aí. Mas nos escapa a cada instante.
Há os almoços em família — intermináveis, sejam bons, difíceis ou cansativos. Há também atividades típicas dele, como os shows no meio da tarde — ou, neste momento de fim de janeiro, os ensaios de carnaval —, cafés com amigos, caminhadas com situashionships, atividades próprias de parques ou saídas para esses lugares que associo com cadeiras de sol no concreto — claro, estamos falando de domingos em São Paulo.
Talvez o problema não seja o dia, em si, mas a cidade. Seriam diferentes meus domingos perto do mar? A resposta é provavelmente sim. Talvez melancólicos de outra forma.
São Paulo não nos permite a entrega total nem aos domingos? Gosto daqui, difícil ganhar distância ao ponto de me responder. Há tanto a fazer. Com toda sua força de polo cultural a cidade dissemina até as atividades de domingo, mantendo seu ritmo caótico e frenético, que assusta e admira.
Talvez o domingo seja um pouco como esse texto, que se pretendia crônica e parece ter se perdido numa tentativa de fluxo de consciência mal planejada: perde-se o rumo e de repente se acorda na segunda-feira. E as feiras que se sucedem até chegarmos na feira de domingo — em breve publico uma lista com mais atividades aos interessados.
É preciso aprender a amar o domingo. E, com ele, a fugacidade de todas as coisas, a todo instante, que nos escapam para que seja possível respirar sucessivamente. Sim… Talvez resida aí a dificuldade desse dia santo…
Já não sei mais para onde estou querendo ir. Acho que desse jeito chegarei na segunda-feira antes do previsto. E, no entanto, hoje, enquanto escrevo, ainda é apenas mais um dia morno de domingo.

