Caymmi e a conta de coral
Acervo da autora
Foi no ano 1976 que, a convite de meus pais, fizemos uma viagem linda pelo Norte, incluindo o Piauí e o Maranhão. No Pará fomos hóspedes da família Steiner. Foi Ruth, a matriarca, quem nos levou a um antiquário cheio de coisas bonitas. Eu, sem um tostão furado para comprar nada, ganhei do dono da loja uma conta de coral, que eu coloquei em minha carteira. Vai que dá sorte, eu pensei, e na próxima vez posso comprar uma peça bonita. Nosso périplo terminou em Manaus, depois da travessia do Amazonas feita num navio gaiola.
1977, um ano se passara da viagem. Papai e mamãe estavam no Rio, onde eram meus vizinhos na rua Rodolfo Dantas. Cheguei para vê-los de manhã e lá estava Caymmi tomando café com cuscuz de milho, feito por mamãe. Maior alegria, muitos abraços e beijinhos, e o pedido de sempre: Você trouxe uma prendinha para o seu tio, Papá?
Caymmi era divertidíssimo. Andava sempre com uma malinha, onde guardava as mais diversas coisas que ganhava. Adorava ganhar presentes, e os pedia com gosto. Comadre Zélia, não tem nenhum mimo para mim hoje?
Naquele dia, ao ouvir o pedido, lembrei da conta de coral de Belém do Pará. Há um ano vivia na minha carteira, estava na hora de mudar de endereço. Tenho sim, Dodô. Vou em casa rapidinho buscar.
Quando voltei, entreguei a conta com um rápido discurso: Senhor Dorival Caymmi, fiz longa viagem à Amazônia em busca de um regalito para meu tio querido. Todos riam. É pequenino, mas de grande valor, pois traz uma sorte danada... Entreguei a conta e vi Caymmi ficar lívido, o riso se virou em espanto. Mamãe se preocupou. O que foi, compadre?
Ele não disse nada, foi buscar sua maletinha, abriu e tirou uma pulseira de contas de coral. Pegou a conta que eu dei e a colocou no lugar onde faltava uma --apenas uma!—exatamente aquela, do tamanho certo. Ganhei ontem. Faltava essa conta que você me trouxe. Como soube? Agora está completo. Dá cá um beijo.
Emoção total, olhos cheios d’água, um espanto, uma magia que tomou conta da sala. Deus benza, Oxalá proteja.
crônicas de domingo
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crônicas de domingo 〰️
Sobre a autora
Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.
Foto: Cecília Amado

