Carnaval da Brigitte Bardot

Acordei cedo neste sábado com uma escola de samba paulistana desfilando na televisão. Me dei conta de que adormecera sem desligar o aparelho, e quando me vi no espelho do banheiro, constatei que nem a fantasia eu tinha tirado! A fantasia é de gato e composta de duas orelhinhas presas a grampos, que se coloca no cabelo.

Acervo da autora

(Um breve parêntesis para explicar que fui à farmácia comprar remédio para pressão e a atendente, muito gentil, me perguntou se eu não tinha interesse em adereços carnavalescos. Me apresentou vários e eu me encantei pelas orelhas de gato, que acrescentei à minha compra. Em casa, uma certa decepção, pois meus gatos não ligaram a mínima...)

Eu me olhei no espelho, toda desgrenhada -- com as orelhinhas -- e comecei a cantar: "Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. La dentro do cinema todo mundo se afobou"... Que maluquice... só que não! Cantar a antiga música de carnaval sobre a musa francesa recém-falecida, me olhando descabelada no espelho, para mim fez todo o sentido e eu queria contar essa histórinha.

Tinha uns 6 anos quando o filme de Roger Vadim, E Deus criou a mulher, chegou ao Brasil. Os comentários na minha casa eram muitos, meu tio James bastante entusiasmado com a nova atriz francesa, já vira o filme duas vezes. "Você já viu esse filme, Jorge? A atriz aparece pelada, deitada de lado, uma coisa louca". Meu avô João, um entusiasmado pelo sexo feminino, animava-se todo, perguntando detalhes. Papai não tinha tempo para ir ao cinema, mas também queria saber mais. Eu, que brincava ali perto, ouvia Brigitte Bardot pra cá, Brigitte Bardot pra lá, não estava entendendo nada e fiquei muito curiosa. Perguntei à mamãe, que também ouvia e, eu não sei por que, amarrara a cara. Você sabe, mãe, o que é uma brigittebardot? Mamãe relaxou, riu e me respondeu: "É uma mulher de cabelo desgrenhado. " Fiquei de alguma forma na mesma, não fazia muito sentido, pois era difícil entender o entusiasmo dos homens da minha família por uma mulher desgrenhada. Enfim, achava os adultos bem complicados e deixei prá lá. Mas o termo brigittebardot ficou para sempre como sinônimo de descabelada.

Assim, que hoje, ao som do samba enredo "Ora mi maio Oxum@, da Escola de Samba Barrocas Zona Sul, eu me olhei no espelho e constatei: Pura brigittebardot fantasiada de gato. Imediatamente entoei a música do grande Miguel Gustavo, que o Jorge Veiga cantava. Declarei para mim mesma, me olhando no espelho: Começou meu carnaval! Tirei uma foto para vocês verem e eu guardar de lembrança.

Bom domingo a todos, e bom carnaval para quem gosta da festa! Ora iê iê ô!

crônicas de domingo

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Sobre a autora

Paloma Jorge Amado é escritora, ilustradora e pesquisadora de gastronomia e literatura. Filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, é membro do Conselho Diretor da Fundação Casa de Jorge Amado e dirige a Grapiúna, empresa que gerencia os direitos autorais do autor. Autora de diversos livros e curadora de exposições, tem trajetória marcada pela difusão da cultura baiana no Brasil e no exterior.

Foto: Cecília Amado

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